Setor de seguros da bolsa de valores brasileira: vale a pena?

Por Vinicius Brandao - 26/01/2021
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O setor de seguros da bolsa de valores brasileira vem ganhando cada vez mais espaço e sendo cada vez mais visado, especialmente por investidores que investem com foco em dividendos. Portanto, as grandes empresas do setor estão expandindo sua atuação no mercado e integrando cada vez mais os relatórios das casas de análise no Brasil.

Contudo, o setor de seguros da bolsa ainda gera uma série de dúvidas sobre os investidores. Não é incomum uma certa confusão entre as seguradoras e instituições financeiras que possuem participação nessas empresas. Nesse sentido, é importante compreender bem a atuação dessas empresas e qual seu foco de atuação.

O que define o setor de seguros da bolsa?

O setor de seguros da bolsa de valores brasileira é aquele em que as empresas prestam serviços variados relacionados à seguridade. Esses serviços podem variar desde os seguros mais tradicionais como seguros de vida, carro e imobiliário até previdência privada, capitalização e também resseguros.

Os produtos oferecidos por esses setor passaram por uma grande expansão nas últimas décadas. Além dos seguros comuns, a adesão à planos de previdência privada aumentou substancialmente nesse período, o que levou ao fortalecimento das empresas desse setor, especialmente as líderes do mercado.

A expansão dessas atividades da área de seguridade, fez com que o setor de seguros passasse a ter inclusive um aumento da sua participação na economia brasileira. Entre 2018 e 2019, o aumento real, ou seja descontada a inflação, as receitas das empresas desse setor teve um aumento na casa dos 7%, ao passo que o PIB brasileiro teve um crescimento próximo a 1% nesse mesmo período.

Para se ter uma ideia, o setor de seguros já respondia por cerca de 4% do PIB brasileiro em 2019. Além disso, a expectativa é essa participação aumente ainda mais nos próximos, dado que se vislumbra que com uma retomada da economia nacional, esse setor seja um dos mais beneficiados, especialmente com relação à adesão à previdência privada.

É importante ressaltar também que parte importante do fortalecimento desse setor deve ser creditado à melhor estruturação jurídica do setor de seguros no Brasil. A SUSEP (Superintendência de Seguros Privados) aperfeiçoou as normas do setor, além de criar incentivos para as captações de longo prazo, fator que favoreceu a atuação desse setor.

Setor de seguros da bolsa e setores perenes

O setor de seguros da bolsa, tal qual outros setores como financeira e de saneamento básico, é um setor perene da bolsa de valores. Em suma, isso significa que esse é um setor que possui certa estabilidade no mercado.

Grandes investidores como Luiz Barsi tem grande preferência por investimentos em ações de setores como esse, justamente pela sua estabilidade e grande potencial de distribuição de dividendos.

As ações desse tipo sempre vão figurar entre as principais lições dos grandes investidores mundiais. Levando em conta o conceito de value investing e valor intrínseco de Benjamin Graham, os setores perenes, em geral, vão acabar sendo sempre os preferidos dos investidores de renda variável.

Características principais e peculiaridades do setor de seguros?

O setor de seguros possui uma série de peculiaridades que precisam ser bem compreendidas pelo investidor que deseja investir nas empresas desse setor. Essas características vão desde os produtos comercializados até a forma como funciona o fluxo de caixa dessas empresas. No caso do fluxo de caixa, este possui uma vantagem importante com relação à maioria dos demais setores da economia.

Gestão de risco

Falar sobre gestão de risco com relação à empresas de seguros pode parecer até pleonasmo, contudo, esse é o ponto crucial da gestão desse tipo de empresa. Warren Buffet mesmo costuma dizer que “não existe risco ruim e sim risco mal taxado” e esse sem dúvidas é o lema adotado por qualquer das empresas desse setor.

Dessa forma, essas empresas são bastante estáveis, visto que as análises de risco são o core business dessas companhias. Nesse sentido, os riscos dessas empresas terem uma queda expressiva e repentina de lucro líquido é menor em comparação aos demais setores de atividade econômica.

Estrutura operacional

Outro ponto que favorece essas companhias é a estrutura operacional dessas empresas que costumam ser enxutas e utilizar parceiros comerciais para potencializar suas vendas. Dessa forma, os custos ficam reduzidos com relação à receita da companhia. Além de tudo, essas empresas possuem parceiros com carteiras grandes de clientes, em geral grandes bancos comerciais.

A estrutura enxuta dessas companhias é possibilitada devido à automatização das análises dessas companhias. Como essas empresas possuem padrões pré-estabelecidos de análises de perfis de risco de seus clientes, com sistemas que realizam automaticamente a precificação, não é necessário uma equipe extensa de funcionários para permitir suas operações.

Fluxo de caixa: receitas antecipadas

Uma das principais vantagens com relação às especificidades do setor de seguros é relacionado ao fato desse setor receber os pagamentos antecipados e ter suas principais despesas no futuro. Na maioria dos setores, as empresas precisam antecipar os investimentos e apostar na rentabilidade futura desses investimentos, o que naturalmente gera um risco maior.

No caso do setor de seguros, as empresas recebem os pagamentos mensais por seus produtos e apenas possuem despesas, os chamados sinistros, no futuro. Sem contar o fato que nem sempre os sinistros chegam a ocorrer.

Esse fluxo de caixa invertido da maioria dos outros setores gera um ganho de eficiência muito grande para esse setor. Visto que essas empresas possuem uma melhor gestão do capital e tendem a ter nível de endividamento reduzido, dado que precisam de capital inicial menor para iniciar suas atividades.

Potencial de crescimento no mercado brasileiro

O mercado brasileiro de seguros ainda vislumbra uma entrada maior na população do país. A imensa maioria da população não possui nenhum tipo de cobertura de seguros, como seguro de vida, por exemplo.

Para se ter uma ideia comparativa, a parcela da população do Brasil que possui seguro de vida está entre 15% e 19%, ao passo que na maioria dos países desenvolvidos esse índice chega a mais de 30%. O seguro mais comum entre os brasileiros ainda é o seguro de automóvel, que responde por cerca de 80% do volume de vendas desse tipo de seguro.

Esses dados tem a levar a uma perspectiva de crescimento maior desse setor no Brasil com a adesão de mais pessoas a esses tipos de produtos. Além disso, um dos produtos que tendem a ter maior potencial de expansão no mercado brasileiro é a previdência privada.

A adesão à planos como o VGBL nos últimos anos cumpriu papel essencial para o crescimento do setor no Brasil. Além disso, após a aprovação da Reforma da Previdência durante o ano de 2019, a tendência é que haja um aumento na procura por esse tipo de serviço, visto que se vislumbra que a população recorra a esse tipo de serviço mesmo que como complemento para a seguridade social pública.

Principais pagadoras de dividendos no setor de seguros

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As empresas de seguro são famosas na bolsa brasileira por serem das empresas com maior potencial para distribuição de dividendos. Como essas empresas possuem receitas constantes derivadas das apólices de seguro e mesmo das contribuições periódicas dos planos de previdência privada, elas possuem um bom fluxo para distribuição de dividendos.

Nesse sentido, algumas empresas desse setor acabam se destacando nesse quesito. No ano de 2019, por exemplo, o BB Seguridade (BBSE3) teve o maior dividend yield da bolsa de valores brasileira. Além disso, se posicionou à frente do próprio Banco do Brasil (BBAS3) e de empresas do setor de energia elétrica.

Uma boa forma de consultar as empresas de seguro que possuem bons indicadores de distribuição de dividendos é a análise do índice IDIV. Esse índice da B3 lista as principais empresas pagadoras de dividendos listadas. No início do ano de 2021, três empresas do setor de seguros fazia parte desse índice:

Vale ressaltar que cada uma dessas empresas apesar de serem do mesmo setor possuem carteiras de produtos diferentes entre si e estratégias de atuação particulares também. Dessa forma, para analisar melhor cada uma dessas empresas mesmo que sob a lógica de dividendos, é importante analisar os fundamentos de cada uma, bem como suas políticas de distribuição de dividendos.

Nesse sentido, uma outra opção de investimento relacionado ao setor e à investimento em dividendos, é o ETF DIVO11. Como esse ETF acompanha o índice IDIV e o setor de seguros é representado nesse índice, uma forma de se expor a esse tipo de risco é o investimento nesse ETF.

O investimento com foco em dividendos, mesmo que por intermédio de ETFs, é uma estratégia comum em diferentes bolsas de valores do mundo. Na bolsa de valores dos Estados Unidos, essa estratégia é comum e há inclusive empresas dessa bolsa com bons indicadores de distribuição de dividendos listadas na bolsa brasileira por intermédio de BDRs (Brazilian Depositary Receipts).

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Principais empresas do setor de seguros da bolsa de valores brasileira

A quantidade de empresas do setor de seguros da bolsa de valores brasileira vem aumentando nos últimos anos. A tendência é que esse aumento continue ocorrendo, inclusive há uma expectativa grande pelo IPO da Caixa Seguridade, braço de seguros da Caixa Econômica Federal. Esse IPO tinha previsão inicial para ocorrer em 2020, mas dada a complexidade da operação e da pandemia do Coronavírus, acabou sendo postergado.

Entre as principais empresas do setor de seguros podemos listar as três que constam no índice IDIV: BB Seguridade, Porto Seguro e Wiz. Mas também podemos citar outras como a Sulamerica. Essa empresa apesar de não figurar na lista das principais pagadoras de dividendos, é uma das maiores empresas do setor no mercado brasileiro. Vamos abordar com um pouco mais de detalhes as principais características de cada uma dessas quatro empresas.

BB Seguridade (BBSE3)

O BB Seguridade é sem dúvidas a empresa mais conhecida do setor, especialmente entre os investidores de renda variável. Essa empresa é uma holding do setor de seguros que funciona como braço de seguros do Banco do Brasil e, portanto, é a responsável pela carteira de seguros do banco. Além disso possui produtos como previdência privada e capitalização dentro do seu portfólio.

Uma das grandes vantagens do BB Seguridade é justamente a capilaridade do próprio Banco do Brasil. Como esse é o maior banco comercial brasileiro e com uma carteira de clientes extensa. Ele possui vantagens até mesmo do ponto de vista logístico em relação a seus concorrentes, visto que há localidades no Brasil em que há apenas agências do Banco do Brasil.

Um dos grandes destaques desse papel é a distribuição de dividendos. O BBSE fez seu IPO em 2012 e poucos anos depois já figurava no índice IDIV e consequentemente entre as principais empresas pagadoras de dividendos. O fato do Banco do Brasil ser seu principal acionista inclusive contribui para que a empresa tenha uma política agressiva de distribuição de dividendos.

Apesar do Banco do Brasil possuir cerca de 66% das ações do BBSE, mais de 30% das ações da companhia estão em free float. Dessa forma, a liquidez das operações dessa companhia não tende a ser um problema para os investidores, como é o caso de outras empresas que possuem capital mais concentrado.

Porto Seguro (PSSA3)

A Porto Seguro é uma das maiores seguradoras do Brasil e além disso ela possui a liderança do mercado nos segmentos de seguros de veículos e seguros de imóveis. A empresa possui a vantagem de ser conhecida por boa parte da população brasileira. Dessa forma, ela tem a fama de seguradora de confiança.

Ainda no aspecto comercial, a Porto Seguro possui contrato de exclusividade com o Banco Itaú para negociação de seus produtos nas agências do banco. Isso sem dúvida aumenta a capilaridade e o alcance da companhia, visto que o Banco Itaú possui agências em quase todos os munícipios brasileiros e é o maior banco privado brasileiro. O Banco Itaú além de ter contrato firmado com a Porto Seguros possui cerca de 30% das ações da companhia.

Vale ressaltar que além dos segmentos mais comuns de seguros, a Porto Seguros também opera no setor de seguro saúde. Dessa forma, ela possui esse tipo de serviço a mais em comparação ao BBSE. Em contrapartida, a atuação da empresa com relação à previdência privada dessa companhia é expressivamente menor que a do BBSE, apesar de também negociar planos VGBL e PGBL.

Assim como o BB Seguridade, a Porto Seguro está listada no índice IDIV e, portanto, figura entre as principais empresas pagadoras de dividendos no Brasil.

Sulamérica (SULA11)

Entre as empresas que vamos abordar nesse artigo, a Sulamerica é a única que não figura no índice IDIV. Mas nem por isso essa é uma empresa que deve ser descartada das análises de ações.

A Sulamerica possui uma estrutura de produtos bem similar ao da Porto Seguro, com grande força em:

  • seguros de automóveis,
  • seguros de vida,
  • seguro de imóveis e especialmente;
  • seguro saúde.

Além disso, a companhia também possui um portfólio expressivo de previdência privada. Isso por sua vez, coloca a empresa no processo de expansão das vendas desse segmento.

A Sulamerica é a segunda maior seguradora do Brasil em termos de pagamentos de prêmios e também a segunda em relação à seguro saúde.

Diferente das outras duas seguradoras citadas aqui, a Sulamerica não possui contrato de exclusividade com algum banco comercial. Todavia, ela possui parcerias com alguns bancos para negociar seus produtos com os correntistas desses bancos, é o caso de Santander, Caixa Econômica Federal, Citibank e Banrisul.

WIZ (WIZS3)

A WIZ é provavelmente a empresa do setor de seguros menos conhecida entre as empresas abordadas. Esse fator ocorre porque na prática, a WIZ é uma empresa de corretagem de seguros. Ela é a responsável por realizar a corretagem dos produtos comercializados pela Caixa Seguradora.

A empresa possui exclusividade na corretagem dos produtos relacionados à seguros do banco federal. Esse inclusive é um dos fatores que facilitam a análise dos analistas de mercado. Visto que a previsibilidade da receita dessa companhia é mais simples de ser estimada, dado que sua receita está indexada às vendas da Caixa Seguradora.

Apesar de pouco conhecida do público geral, a empresa já figura no índice IDIV da bolsa brasileira. Esse fator ocorre porque como essa é uma empresa de corretagem. Portanto, ela é uma empresa geração de caixa forte e baixos níveis de custos de operação e endividamento. Esse movimento fortalece a geração de lucro líquido da empresa e, consequentemente, possibilita uma forte distribuição de dividendos.

Os resultados da companhia com relação à dividendos já podem ser considerados expressivos, em 2019 a empresa apresentou dividend yield superior a 6%. A tendência é que os números da companhia possam continuar nesse patamar nos próximos anos. Mas deve ser levado em conta nessa análise, os impactos que a empresa sofreu durante a crise durante o ano de 2020.

Considerações finais

O investimento em empresas do setor de seguros na bolsa sem dúvida pode ser considerado uma boa possibilidade para os investidores. O setor de seguros está entre os setores perenes da bolsa de valores e, portanto, possuem maior estabilidade dentro do mercado. As empresas desse setor são reconhecidas como boas pagadoras de dividendos.

Todavia, apesar das características favoráveis do setor, é sempre importante ressaltar que a análise fundamentalista e o valuation antes de qualquer investimento em ações a longo prazo se faz necessária. Portanto, mesmo o setor de seguros da bolsa sendo atrativo demanda atenção e estudo antes de efetivação do investimento.

Assessoria-Exclusiva
Vinicius Brandao

Vinicius Brandao

É economista e autor no blog Caminho para Riqueza.