Setor de energia elétrica da bolsa: é um bom investimento?

Por Vinicius Brandao - 03/02/2021
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O setor de energia elétrica da bolsa de valores brasileira vem ganhando mais destaque a cada dia. O fato de energia elétrica ser um setor perene da bolsa contribui bastante para que as ações deste setor chamem a atenção dos investidores, especialmente aqueles que adotam a estratégia de buy and hold.

Dada as suas características, o setor de energia elétrica da bolsa é um setor que também se destaca por figurar entre as principais empresas distribuidoras de dividendos. Nesse sentido, esse setor pode ser útil a diferentes estratégias de investimento. Portanto, é importante compreender como se organiza e como funciona esse setor dentro da economia brasileira.

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Como funciona o setor de energia elétrica da bolsa?

O setor de energia elétrica da bolsa de valores brasileira e também as demais empresas do setor que não estão listadas em bolsa podem ser consideradas um setor ainda em processo de aperfeiçoamento.

Para se ter uma ideia o marco legal do setor de energia elétrica no Brasil vem passando por sucessivas atualizações, sendo a última aprovada no ano de 2020 pela Câmara Federal. Seja como for, as condições de atuação do setor ainda estão em desenvolvimento, mas este sem dúvidas é um setor que vem crescendo, especialmente com relação às energias renováveis.

Setor de energia elétrica da bolsa e os setores perenes

O setor de energia elétrica da bolsa está entre os setores perenes da bolsa, tal qual outros setores como:

Mesmo entre os setores perenes, o setor de energia elétrica é um dos mais estáveis. Visto que o consumo de energia elétrica é contínuo e não costuma sofrer grandes variações mesmo em períodos de crise. Como pode ser analisado, tanto na crise de 2008 como na crise de 2020.

Grandes investidores, como é o caso de Luiz Barsi, tem um grande apreço por esse setor. Barsi aponta que como o consumo é constante, os lucros também são constantes. Ele cita o exemplo de que uma pessoa mesmo que vá viajar durante todo o mês terá que pagar ao menos uma taxa da conta de energia elétrica. Ou seja, esse consumo não é interrompido.

Mesmo em estratégia para se fazer hedge da carteira de investimentos, esse setor pode ser interessante. Ray Dalio, por exemplo, que é conhecido por suas gestões de risco, aponta que é importante mesclar a volatilidade dos ativos que você possui em carteira. No caso dele, ele sempre sugere a inclusão de investimento em metais preciosos, como investimento em ouro e investimento em prata.

Mudança global no padrão de geração de energia elétrica

Com a constante escassez de recursos, há um aumento expressivo da demanda no mundo pela geração de energia eólica e solar. Essas duas fontes de energia são abundantes no território brasileiro, contudo carecem de investimento em infraestrutura, o que aumentou substancialmente nas duas últimas décadas.

A geração de energia hidrelétrica ainda é uma das grandes forças do país. Todavia, apesar de ser uma fonte limpa de energia, essa não é uma fonte renovável. Visto que a utilização desse tipo de fonte depende dos níveis dos reservatórios de água e consequentemente dos níveis de chuva.

Essas condições do mercado global de energia elétrica e as mudanças na tendência da geração de energia elétrica são fatores importantes. Para uma análise de longo prazo esse tipo de compreensão pode ser primordial para avaliar as empresas do setor que possuem além de bons fundamentos, melhor perspectiva de crescimento frente a esse novo cenário.

Um bom exemplo dessa lógica de avaliação, é o grande investidor americano Jim Rogers. Ele costuma afirmar que os grandes investimentos que ele realizou durante toda sua carreira foram investimentos em que ele antecipou uma alteração de costumes da sociedade. Esse exemplo pode facilmente ser enquadrado no setor de energia elétrica da bolsa.

Estruturação do setor de energia elétrica no Brasil

O setor de energia elétrica no Brasil é dividido em três grandes segmentos:

  • geração;
  • transmissão e;
  • distribuição.

Há empresas do setor que atuam apenas em um dos segmentos e algumas que atuam em mais de um. Cada um desses setores oferece uma perspectiva de rentabilidade e riscos diferentes, apesar de todos serem considerados estáveis.

Nesse sentido, para aprimorar o investimento nesse setor é importante conhecer como se organiza cada um desses três segmentos. Além disso, no momento de analisar cada empresa é sempre importante compreender como ela se encaixa nessa engrenagem do setor, visto que cada segmento acaba dependendo do outro.

Geração de energia elétrica

O segmento de geração de energia elétrica dentro do espectro desse setor, é o segmento de risco médio. Nesse segmento há empresas operando com as mais diferentes fontes de energia elétrica, sendo que a principal ainda é a hidrelétrica. Além dessa fonte, também são utilizadas, energia eólica, solar e termelétrica.

As usinas termelétricas são as menos utilizadas no Brasil, visto que essas são fontes de energia com maior custo e a única das fontes de geração que não é de energia limpa e consequentemente mais prejudicial ao meio ambiente.

Essas empresas atuam tanto com contratos de geração de energia com estatais do setor elétrico, como a Eletrobrás ou estatais regionais, como também com contratos com o setor privado para grandes consumidores.

Nesse sentido, essas empresas costuma ter contratos longos de volumes de energia elétrica pré-contratados, o que gera maior estabilidade para esse tipo de companhia.

Dessa forma, os riscos desse segmento são com relação à falência das empresas compradoras ou problemas estruturais dentro da geração de energia. Contudo, eventos como esses não são corriqueiros, os riscos dessas empresas são baixos em comparação a outros setores da bolsa brasileira.

Alguns exemplos de empresas desse segmento do setor de energia elétrica são:

  • Ômega Geração de Energia (OMGE3);
  • Eneva (ENEV3);
  • CESP (CESP6);
  • AES Tietê (TIET11).

Transmissão de energia elétrica

O segmento de transmissão de energia elétrica é o segmento mais estável dentre os três do setor de energia elétrica. Esse setor é justamente o elo entre as geradoras de energia elétrica e as distribuidoras.

Dessa forma, essas empresas são responsáveis por transportar a energia elétrica de um ponto x ao ponto y. As grandes linhas de energia elétrica que observamos Brasil afora, especialmente em rodovias, são de responsabilidade dessas empresas.

A receitas das empresas transmissoras de energia elétrica são as mais previsíveis e por esse motivo essas são as empresas de risco mais baixo no mercado. Os contratos de transmissão de energia são realizados a partir de leilões de concessão e possuem uma longa duração, em geral, os contratos são de cerca de 30 anos.

Nesse sentido, os valores previstos para pagamentos nos contratos são reajustados periodicamente pela inflação. Portanto, essas empresas não possuem grandes variações em suas receitas e não costumam ter problemas de fluxo de caixa.

Os riscos desse tipo de empresa são riscos considerados extremos, casos como colapso total do sistema de energia elétrica. Esse tipo de evento é extremamente improvável, dada a importância do setor para o funcionamento da vida cotidiana, o que torna esse tipo de empresa uma ótima opção para quem possui perfil de investidor avesso ao risco.

Alguns exemplos de empresas que atuam no segmento de transmissão de energia elétrica são:

Distribuidoras de energia elétrica

O segmento de distribuição de energia elétrica é o mais vulnerável entre os três segmento desse setor. Esse fato ocorre porque esse segmento é a ponta final de toda a cadeia do setor, ou seja, esse é o segmento que se relaciona diretamente com o consumidor final e, portanto, está sujeita às possíveis variações na demanda.

Apesar desse segmento ser o mais exposto entre os três, vale ressaltar que mesmo assim as empresas desse segmento são estáveis. Isso ocorre porque a demanda de energia elétrica, via de regra, é linear, ou seja, ela não sofre grandes variações. Mesmo durante a pandemia do coronavírus, é possível verificar que essas empresas são as que têm, enquanto setor, menos impactos em suas receitas.

As receitas da distribuição de energia elétrica seguem uma regulamentação, ou seja, os preços cobrados por energia consumida são controlados pelo Estado e as variações só são permitidas se seguirem as regras pré-estabelecidas.

Por exemplo, em caso de períodos de pouca chuva e redução dos níveis dos reservatórios, as distribuidoras tem que recorrer à energia gerada por termelétricas, as quais são mais caras. Nesses períodos, as distribuidoras são autorizadas a cobrar um adicional na conta de energia, chamadas de bandeiras amarela e vermelha.

No caso dessas empresas, a infraestrutura e a eficiência na distribuição podem ser um diferencial, visto que podem reduzir os custos de operação dessa companhia. Dessa forma, mais do que em outros setores esse tipo de análise no momento da comparação é essencial.

As empresas do segmento de distribuição de energia elétrica em destaque no Brasil são:

Distribuição de dividendos e o setor de energia elétrica da bolsa

As empresas do setor de energia elétrica da bolsa são reconhecidas também por serem empresas boas pagadoras de dividendos. As características do setor apontadas ao longo desse texto colaboram para explicar porque as empresas do setor tem esse potencial de forte pagamento de dividendos.

Como as receitas e os custos desse tipo de companhia são estáveis e na maioria dos casos previsíveis, não há oscilação de demanda ou de lucro líquido. Dessa forma, as empresas podem ajustar suas operações da melhor forma possível, visto que os riscos da demanda esperada não se realizar são baixos.

Além disso, as empresas acabam se notabilizando por serem boas pagadoras de dividendos. Dessa forma, muitas dessas empresas possuem regras de distribuição de proventos em que o percentual do lucro líquido distribuído sob a forma de dividendos é superior ao mínimo exigido (25%).

Ou seja, algumas empresas distribuem 30% ou mais, chegando a 90% dos lucros.

Vale ressaltar que apesar do setor como um todo ser popular na mídia especializada como bons pagadores de dividendos, é sempre importante analisar caso a caso. A análise fundamentalista da empresa, bem como o dividend yield médio dos últimos anos, além das perspectivas para o futuro, são essencial nesse tipo de análise.

Alguns pontos que podem facilitar essas análises são a duração dos contratos que essas empresas possuem, especialmente as empresas de transmissão de energia elétrica.

Em geral, essas companhias possuem contratos longos, portanto, se há um histórico de bons dividendos, a tendência é de continuidade caso o contrato ainda esteja longe do vencimento.

Setor de energia elétrica e o IDIV

Para se ter uma boa ideia sobre a relação entre as empresas do setor de energia elétrica e a distribuição de dividendos, vale a pena consultar o IDIV. O IDIV é o índice de dividendos da B3 e que aglutina as principais empresas pagadoras de dividendos da bolsa brasileira segundo algumas regras.

Além disso, um dos principais ETFs (Exchange Traded Fund) da bolsa brasileira acompanha o IDIV, esse ETF é o DIVO11.

DIVO11- ETF de dividendos para o investidor

Sete empresas do setor de energia elétrica fazem parte da composição do IDIV, o que coloca esse setor como um dos principais no quesito dividendos.

Essas empresas são:

  • CEMIG (CMIG4);
  • COPEL (CPEL3);
  • Engie Brasil (EGIE3);
  • EDP Brasil (ENBR3);
  • Taesa (TAEE11);
  • Transmissão Paulista (TRPL4);
  • AES Tietê (TIET11).

Principais empresas do setor de energia elétrica da bolsa

A lista das empresas do setor de energia elétrica é vasta e vem aumentando cada vez mais. Nesse sentido, vamos apontar aqui quatro das principais empresas do setor. Sendo pelo menos uma de cada segmento, para que o investidor possa ter uma ideia mais geral sobre como as empresas de cada segmento se comportam no mercado.

Alupar (ALUP11)

A Alupar é uma holding do setor de energia elétrica e apesar de ter seu foco de atuação no segmento de transmissão de energia elétrica, também atua na geração de energia. Além de atuar no Brasil, a companhia também opera concessões de energia elétrica na Colômbia e no Peru.

Com relação à transmissão de energia elétrica, a companhia opera cerca de 8.000 km de linhas de transmissão no território brasileiro. As concessões adquiridas pela companhia possuem duração de 30 anos e em grande maioria foram fechadas ao longo da década de 2010.

Já em relação à geração de energia elétrica, a Alupar opera com as fontes de energia hidrelétrica, tendo 3 usinas hidrelétricas e 4 PCHs (Pequenas Usinas Hidrelétricas). Além disso, a empresa também possui atuação na geração de energia eólica a partir de um único parque eólico.

Com relação à distribuição de dividendos, a empresa vem distribuindo dividendos todos os anos recorrentemente, ao menos desde 2014. Todavia, é importante ressaltar que com relação ao dividend yield, esse passou por uma redução mas ainda se encontra em níveis superiores à taxa Selic.

Taesa (TAEE11)

A Taesa é uma companhia que atua exclusivamente no segmento de transmissão de energia elétrica. A companhia opera mais de 13 mil km de linhas de transmissão espalhadas pelas cinco regiões brasileiras.

O número de concessões da companhia está próximo de 40 e tal qual a Alupar também conta com longos contratos de operação. Além disso, uma parte importante dessas concessões foi fechada no período recente, o que garante ainda um período futuro extenso de vigência dos contratos.

Além disso, a Taesa é uma empresa que opera exclusivamente com transmissão de energia. Com isso, a estabilidade é ainda maior em comparação com outras companhias do setor de energia elétrica.

Já com relação à distribuição de dividendos, essa é uma companhia que se destacou não apenas no setor de energia elétrica mas na bolsa de valores como um todo. No ano de 2019, a empresa contou com o maior dividend yield da bolsa brasileira e nos últimos anos conta com DY-dividend yield acima de 7%, o que é considerado um percentual elevado.

Ômega Geração de Energia

A Ômega Geração de Energia é uma companhia que atua exclusivamente no segmento de geração de energia elétrica. Além disso, vale ressaltar que a empresa tem suas atividades apenas com fontes de energia limpa, portanto, ela opera hidrelétricas, parques eólicos e geração de energia solar.

A empresa atua nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, sendo que nessa última o foco é com relação aos parques eólicos. A produção anual da companhia é de cerca de 2.100 GWh de energia elétrica, o que é um número expressivo para as companhias do setor.

Com relação à distribuição de dividendos, a Ômega provavelmente é a exceção que justifica a regra do setor. Essa não é uma empresa que apresentou bons dividend yield nos últimos anos, apesar de ser uma empresa estável que passou por um forte valorização no preço das suas ações nos últimos cinco anos.

Mas como sempre é lembrado, as análises e o valuation devem ser feitos de acordo com os fundamentos da companhia. Como essa é uma empresa que realizou fortes investimentos nos últimos anos, esse é um fator que contribui para justificar a baixa distribuição de dividendos. Nesse sentido, é importante investir mirando o futuro e não esperando a repetição do passado.

Equatorial Energia (EQTL3)

A Equatorial é uma holding do setor de energia elétrica que atua em alguma medida nos três segmentos do setor. Todavia, o foco da companhia está na distribuição de energia elétrica. Nesse sentido, a companhia opera a distribuição de energia elétrica nos Estados de Alagoas, Piauí, Maranhão e Pará.

Além disso, a empresa opera uma linha de transmissão de energia elétrica entre os Estados de Tocantins e Goiás. Todavia, possui também a participação em uma geradora de energia termelétrica que opera duas usinas dessa fonte no Estado do Maranhão.

Com relação à distribuição de dividendos, a companhia vem distribuindo dividendos de forma recorrente desde 2012. O dividend yield da companhia costuma oscilar entre 1 e 4% aproximadamente.

Contudo, nesse caso vale ressaltar uma situação similar à Omega. A empresa nos últimos anos passou por uma forte valorização das ações e também realizou uma série de investimentos, os quais fez com que a companhia inclusive assumisse a distribuição de energia de Estados como Maranhão e Alagoas.

Considerações finais

O setor de energia elétrica da bolsa é um dos mais estáveis do mercado brasileiro e não por acaso está entre os setores perenes da bolsa. Contudo, como apresentado esse é um setor vasto, com empresas de diferentes características, com diferentes estratégias dentro do mercado e que devem ser analisadas sempre de forma individual e não como grupo.

Dessa forma, o investimento no setor de energia elétrica da bolsa pode ser uma boa alternativa para diferentes perfis de investidores. Além disso, o investimentos em setores perenes como esse está em acordo com as principais lições dos grandes investidores que fizeram historia no mercado financeiro.

Vinicius Brandao

Vinicius Brandao

É economista e autor no blog Caminho para Riqueza.