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Ray Dalio: Como ter bons rendimentos e mitigar riscos ao mesmo tempo

Ray Dalio pode não ser um dos investidores mais populares no mercado, como é Warren Buffet, por exemplo. Mas sem dúvidas ele é um dos que mais conhecem não apenas os fundamentos que movem o mercado mas também as engrenagens que fazem com que a economia se mova ao longo dos ciclos.

Uma das principais características de Ray Dalio, é a gestão de risco. As técnicas implementadas no fundo de hedge fundado por ele tem um perfil mais complexo e se utiliza de formas de investimentos e alavancagem inacessíveis para todos. Todavia, a lógica para formação de portfólio desse investidor pode colaborar para a formação de uma carteira de investimentos de qualquer investidor, seja de pequeno, médio ou grande porte.

Até o McDonald’s recorreu ao conhecimento de Ray Dalio

O perfil para gestão de risco de Ray Dalio ficou famoso não apenas dentro do mercado financeiro, mas também em outros setores. Essa fama de Dalio fez com que o McDonalds o contratasse para colaborar com uma negociação crucial para a empresa de fast food.

Durante os anos 1980, o McDonalds criou pela primeira vez um lanche com frango ao invés do hambúrguer convencional. Contudo, isso geraria um aumento na demanda por frango tão grande, que a tendência seria de elevações no preço do mesmo e isso iria impactar a política de preços da rede de lanchonetes.

Gestão do risco

Entretanto, o principal problema da negociação era o fato de que os fornecedores de frango não queriam fixar o preço devido à possibilidade de aumento nos custos para produção de frango, como ração, milho e afins. Nesse contexto, Ray Dalio foi contratado para intermediar essa relação de forma que colaborasse para diminuir os riscos de ambos os lados.

Contrato de opção de futuro

E ele encontrou a solução para o impasse. Visto que o problema para os fazendeiros era um possível aumento no custo. Ele apresentou uma proposta na qual o valor de venda do frango ao McDonalds seria fixo mas haveria um contrato de opção de futuro para os fornecedores que poderia ser acionado caso os seus custos aumentassem ao longo do tempo.

Dessa forma, a lanchonete conseguiu o preço que desejava pagar e os fornecedores da proteína conseguiram uma garantia de que não teriam o risco de terem prejuízos por ter que vender por um preço que comprometesse seus lucros em caso de aumento dos custos.

Trajetória de Ray Dalio

O gosto por finanças de Ray Dalio começou cedo. Aos 12 anos a partir da renda de pequenos trabalhos como entregador de jornal, ele juntou 300 dólares e comprou ações de uma empresa aérea. Essa ação acabou se valorizando e esse foi o primeiro ganhou de Dalio no mercado financeiro.

Sua trajetória na bolsa de valores começou durante a década de 1970, após concluir sua faculdade de finanças. Ele atuou como funcionário da próprio bolsa de valores nova-iorquina e depois como analista e trader em algumas gestoras de recursos em Wall Street. Mas poucos anos depois, em 1975, ele já fundaria sua empresa, a Bridgewater.

Década de 1970: Crise do petróleo e fim do padrão ouro

O fato da carreira de Ray Dalio em Wall Street ter começado na década de 1970 foi de grande valor para os fundamentos que ele carregaria pelo resto da sua carreira. Esse período, no qual houveram dois choques do petróleo contribuíram para que Dalio compreendesse melhor as engrenagens da economia e como o mercado reagiria a esses movimentos.

O fim do padrão ouro, o qual significou que a partir daquele momento a emissão de dólares não corresponderia mais a determinada quantia de ouro gerou uma alteração grande na economia não apenas dos Estados Unidos mas do resto do mundo.

Nessa década, na qual teve alterações repentinas da taxa de juros, inflação, mudanças no ritmo da economia ajudaram Dalio a compreender como a economia funcionava. Além disso, fez com que ele entendesse melhor o que leva a uma variação do preço dos ativos. A partir dessas compreensões seria possível investir de maneira mais eficiente e com menos risco.

O que movimenta a economia?

Para Ray Dalio, a economia é uma máquina bem simples de se compreender. Em grande medida, há três fatores que a determinam:

  • Crescimento da produtividade;
  • Endividamento de curto prazo;
  • Endividamento de longo prazo.

Gastos

Em linhas gerais, os gastos movimentam a economia. E os gastos se resumem à renda das pessoas e ao crédito que elas podem tomar para incrementar seus gastos. Dessa forma, as dívidas de curto prazo podem colaborar para o movimento da economia no curto prazo, dado que aumentam a capacidade de gastos dos indivíduos.

Endividamento

No caso do endividamento de longo prazo, esse é o responsável pelos ciclos econômicos. Visto que eles podem gerar um ciclo de expansão mas quando chegam a um determinado ponto máximo, há uma inflexão, e a partir desse ponto inicia-se a recessão.

Crédito

Portanto, o crédito colabora para explicar o curto prazo e os ciclos. Todavia, o longo prazo é explicado pela produtividade. Essa por sua vez representa um ganho ou perda real, portanto, é o que deve permear o horizonte futuro.

Ray Dalio afirma de antemão que é necessário mais elementos para uma compreensão mais exata. Todavia, esses três fatores são imprescindíveis para qualquer análise.

Mas afinal, o que faz com que o preço dos ativos sofra uma variação?

Ray Dalio afirma que há apenas quatro fatores que podem alterar a cotação dos ativos e que devem ser o foco da atenção dos investidores:

  • Inflação acima do esperado;
  • Inflação abaixo do esperado;
  • Crescimento econômico acima do esperado;
  • Crescimento econômico abaixo do esperado.

Ele aponta que é possível verificar a partir dos itens listados, que o fator que altera o preço dos ativos é justamente o efeito surpresa. Dessa forma, a precificação dos ativos é realizada esperando uma determinada inflação e um determinado crescimento econômico, caso atendam as expectativas os preços dos ativos não se alteram.

As quatro estações em um só portfólio

Ray Dalio chama os eventos que podem impactar o preço dos ativos como as quatro estações. Ele entende que para os investidores essas são as estações possíveis durante o ano. Contudo, diferente das estações climáticas, não é possível prever com certeza qual das estações irá chegar e em qual momento cada uma delas virá.

Nesse contexto, ele aponta que é necessário montar um portfólio que responda à possibilidade de ocorrer qualquer um desses quatro eventos. Portanto, o objetivo da carteira é dividir o risco entre as quatro estações possíveis.

Dessa forma, é necessário ter ativos que respondam tanto a uma alta como a uma baixa da inflação. Além disso, é necessário ter ativos que respondam a um crescimento maior ou menor que o esperado. Ele chama essa estratégia de “Todas as Estações”, pois ela é estruturada justamente para possibilitar ganhos em todas as estações e incorrendo no menor risco possível.

Entender as quatro estações ajuda a não ter perdas desnecessárias

Um movimento comum no mercado é investidores comprando ações por um preço elevado e vendendo por um preço baixo. Isso parece contra intuitivo mas acontece bastante. Isso ocorre porque a pessoa compra uma ação em um ciclo de alta porque há uma onda de otimismo. Ao mesmo tempo, investidores desse tipo vendem ações a preços baixos em momentos de instabilidade porque não tem confiança na decisão que tomaram.

Dessa forma, compreender bem os movimentos e ter confiança nas atitudes dentro do mercado são essenciais para um investidor. Essa lógica também se encaixa na análise fundamentalista, e faz parte das regras básicas de grandes investidores como Luiz Barsi e como foi Benjamin Graham.

Por esse motivo Ray Dalio costuma dizer que:

É importante ter embasamento para saber que quando você entrar dentro do sistema você ganhará mais do que irá perder.
(Ray Dalio)

Como funciona a gestão de risco de Ray Dalio?

Como apontado Dalio estrutura seu portfólio baseado nos quatro eventos que na compreensão dele podem alterar o preço dos ativos. Dessa forma, ele monta a carteira de investimentos de forma a realizar a gestão de risco da carteira. Ele pensa no percentual de risco de cada ativo frente a cada movimento possível dentre os que ele apontou.

Nesse âmbito, ele colabora desmitificar alguns conceitos sobre diversificação que muitos investidores costumam cometer.

Erros na hora de diversificar a carteira

Ray Dalio aponta, por exemplo, que uma carteira na qual o investidor aloque metade da carteira em ações e a outro metade em Bonds (Títulos de Dívida), o investidor não está diversificando o risco da carteira. Isso ocorre porque o risco das ações é três vezes maior que o risco de investir em títulos, ou seja, as ações tem uma volatilidade muito maior que os títulos.

Em uma carteira como a desse exemplo, o risco da mesma está todo concentrado em ações, dado que realizando o cálculo do risco, em números aproximados, a divisão do risco ficaria em 95% para ações e 5% para títulos.

Para Dalio, o risco de uma carteira deve ser dividido em quatro parte iguais, sendo cada parte correspondente a uma das quatro estações citadas por ele. Em cerca de 40 anos desde que ele fundou o Bridgewater, são poucas as vezes em que o fundo fechou um ciclo com perdas e mesmo durante a crise de 2008 e o caos instaurado após a quebra do Lehman Brothers, o fundo de Dalio sofreu uma queda de pouco mais de 3%.

Complexidade do método a partir das 4 estações

A forma de alocar os ativos de Ray Dalio em seu portfólio e consequentemente no portfólio do Hedge Fund, do qual ele é gestor, o Bridgewater é um pouco complexa. Além de utilizar estrutura e realizar algumas operações de balcão que não são nem acessíveis e nem recomendáveis para investidores menores, ele também se vale de alavancagem para potencializar sua estratégia.

Essa complexidade, inclusive, é um dos motivos por esse investidor ser visto como um investidor exótico por outros agentes de Wall Street. Muitos analistas e grandes investidores acham a estratégia utilizada pela Bridgewater muita complexa para ser executada.

Tamanho do patrimônio

Contudo, não se pode desmerecer o sucesso que esse Hedge Fund teve ao longo do tempo. Fundado em 1975 por Dalio, ele atingiu a marca de maior Hedge Fund do mundo em 2005. O Bridgewater administra um patrimônio de cerca de 160 bilhões de dólares, enquanto a média de gestão de Hedge Funds é de cerca de 15 bilhões de dólares.

Além disso, a estratégia de Dalio além de mitigar os riscos da carteira, possibilitou uma média anual de cerca de 15% de rentabilidade. O que é um valor considerável para uma carteira com baixa volatilidade.

É possível para qualquer investidor aplicar o método de Ray Dalio?

Replicar exatamente a alocação por classe de ativos de Dalio na Bridgewater seria quase impossível para um investidor comum. Mas em uma entrevista no livro “Dinheiro” de Tony Robbins, Ray Dalio montou um portfólio que seria adequado para o investidor comum seguindo os princípios dele.

A alocação desse portfólio seria:

  • 30% em ações;
  • 15% em títulos públicos de médio prazo (7 a 10 anos);
  • 40% em títulos públicos de longo prazo (20 a 25 anos);
  • 15% em ouro e mercadorias.

Alocação em ações

A alocação em ações para determinados perfis de investidores pode parecer pouca mas dado que essa classe de ativos possui uma volatilidade maior não se poderia alocar uma porcentagem maior.

Com relação à grande alocação em títulos, ele aponta que os títulos por possuírem um risco menor balanceiam o peso do risco das ações. Além disso, os títulos com maior prazo colaboram para gerar ganhos maiores.

Ouro

Por fim, a alocação em ouro e mercadorias, é justamente para cenários nos quais haja um surto inflacionário. Momentos desse tipo podem impactar negativamente tanto as ações quanto os títulos e dessa forma a alocação em ouro e mercadorias faz um rebalanceamento desse risco.

Vale salientar que a alocação sugerida por Dalio é baseada no mercado financeiro dos Estados Unidos. Portanto, mesmo a usando como exemplo é importante adaptá-la a ativos do mercado financeiro brasileiro. Dessa forma, é possível incluir, fundos imobiliários dentro do percentual de títulos, por exemplo, entre outras alterações possíveis.

Realocação dos ativos: como e quando fazer?

Dalio recomenda que é necessário sempre estar realocando os ativos para manter as proporções iniciais. Dessa forma, quando a carteira incorrer em grandes ganhos, é importante remanejar os ativos para retornar para as proporções iniciais entre os ativos.

Segundo ele, é necessário realizar esse movimento ao menos uma vez ao ano. Para ele, a necessidade de realocação do portfólio, é um dos motivos pelos quais é recomendável ter um assessor de investimentos ou um profissional similar para realizar esse tipo de movimento sempre que necessário.

“Princípios”, de Ray Dalio

O sucesso de Ray Dalio como investidor não foi simples e além disso passou por mudanças inclusive comportamentais dele dentro da sua própria gestora. Essas mudanças inclusive o incentivaram a escrever o seu livro chamado Princípios, no qual ele descreve sobretudo essa mudança que o ajudou a fazer da Bridgewater o maior Hedge Fund do mundo.

Mesmo com o sucesso que ele teve na década de 1980, no começo da década de 1990, os seus sócios o alertaram que o seu comportamento em relação à forma de lidar com os demais funcionários poderia comprometer o sucesso da empresa.

A partir desse momento, Ray Dalio passou a repensar sua forma de agir e resolveu inclusive alterar o próprio funcionamento interno da companhia. Essa mudança consistiu inclusive em fazer com que os funcionários entendessem o caminho para chegar ao objetivo e que eles teriam todo o suporte para enfrentar esse percurso.

Mais do que representar uma mudança comportamental que levou ao sucesso, esse movimento de Dalio, colabora para apresentar que é necessário estar aberto às críticas e que pode ser necessário se reinventar para alcançar o objetivo.

Com relação aos investimentos essa lógica não é diferente, os dogmas costumam atrapalhar o investidor. Dessa forma, a reflexão sobre as decisões tomadas devem estar abertas à revisão. Mas, é claro, sempre se baseando em fundamentos, dado que essa base é que colabora para nortear uma estratégia.

O capitalismo precisa ser reformado

Nos últimos anos, Dalio iniciou seu processo de saída da gestão da Bridgewater e se dedicou sobretudo às suas ações filantrópicas e a publicação dos seus últimos três livros. Os quais inclui o Princípios e um mais recente no qual ele afirma que o capitalismo precisa ser reformado.

Segundo, ele a desigualdade social é um problema para a sociedade como um todo, inclusive para o capitalismo. Ele aponta que apesar de não ter nascido rico, era de uma família de classe média e nunca lhe faltou condições básicas. Contudo, essa não seria a realidade da maior parte das pessoas inclusive nos Estados Unidos.

Nesse sentido, é necessário que todas as pessoas tenham ao menos oportunidades mínimas para terem alguma chance de obterem sucesso. Dessa forma, para ele o capitalismo precisa ser reformado, justamente porque ele não está funcionando bem para a grande maioria da população dos Estados Unidos e também do mundo.

As idéias e estratégias de Dalio

As ideias e a estratégia com a qual Ray Dalio construiu sua história no mercado financeiro sem dúvida merece total atenção. Dalio primeiro compreendeu o funcionamento da economia de forma mais geral e isso ajudou com que ele pudesse entender como funcionava cada uma de suas engrenagens e como se movimentar frente a isso.

A partir dessa compreensão da economia, as ideias dele colaboram para mapear como se proteger de perdas devido aos movimentos possíveis mas além disso possibilitando incorrer em ganhos financeiros.

Essa provavelmente é uma das maiores contribuições de Dalio para os investidores. Pois colabora para que investidores saibam como ter uma carteira rentável, sem ter uma grande exposição à perdas.

Essa lógica vai ao encontro de ensinamento de outros grandes investidores como Warren Buffet, que aponta que a principal regra para um investidor é “não perca dinheiro” e a segunda regra é “releia a primeira regra”.

A estratégia de Ray Dalio é de grande valor para os investidores. Não há dúvidas que no momento de alocar o portfólio é necessário dar atenção ao perfil de cada investidor e a partir daí decidir a melhor estratégia. Mas é importante no momento de alocar a estratégia conhecer boas opções para escolher.

Vinicius Brandao

Por Vinicius Brandao

É economista e autor no blog Caminho para Riqueza.

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