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Peter Lynch: sabedoria não convencional e a estratégia de investimentos

Peter Lynch foi um dos gestores de fundos de investimentos que mais obteve sucesso em sua carreira no mercado financeiro.  Os rendimentos elevados do fundo sob a gestão de Lynch possibilitou inclusive que ele realizasse uma aposentadoria cedo e passasse a se dedicar a ações filantrópicas.

Peter Lynch é marcado por uma sabedoria não convencional dentro do mercado financeiro. A análise dele para comprar ações vai além de mensurar os números da empresa, valoriza o conhecimento por parte do investidor e além disso reforça a necessidade de confiar nos motivos que o fizeram comprar determinado ativo.

O sucesso de Peter Lynch no Magellan Fund

Peter Lynch obteve sucesso como gestor de fundos de investimento em um curto período de tempo. Após trabalhar na empresa Fidelity durante 11 anos, ele passa a trabalhar no Fundo Magellan no ano de 1977. O business da Magellan era considerado obscuro à época, mas bons negócios que a princípio não parecem tão atrativos acabaria se tornando uma marca de Lynch.

Entre 1977 e 1990 à frente do Magellan Fund, Peter Lynch obteve rentabilidade correspondente a uma média de 29,2 % ao ano. Esse valor esteve bem acima da média do mercado e bem acima da variação do índice S&P 500 da Bolsa de Nova York. Além disso, o patrimônio sob administração do fundo aumentou de US$ 18 milhões para US$ 14 bilhões nesse período de 13 anos.

Nesse período, Lynch ficou conhecido como um dos principais gestores do mercado financeiro norte-americano. Além disso, ele recebeu a alcunha de lenda na atualização do livro “Investidor Inteligente”, cujo autor original é Benjamin Graham, o pai do value investing.

Inclusive foi no final desse ciclo que ele decidiu se afastar do mercado e se dedicar à filantropia. Para essa função ele criou a Lynch Foundation, que é onde ele dedica a maior parte do seu tempo na atualidade.

Quais são os métodos de análise de Peter Lynch?

Os métodos aplicados por Peter Lynch sob um olhar desatento seriam parecidos com outros grandes investidores que utilizam o value investing como filosofia de investimentos, tal qual Jim, Rogers, Luiz Barsi, Warren Buffet, entre outros. Todavia, o método de Lynch possui algumas especificidades que fazem com que sua análise seja um pouco fora do convencional.

Beating the Street

Uma das características de Lynch era sair à rua e olhar de perto as companhias que ele gostaria de comprar ações. Ele aborda essa característica em um dos seus livros, o Beating the Street, em uma tradução adaptada, seria algo como “Encarando a Rua”.

Em boa parte da sua carreira, Lynch bateu na porta de diversas companhias, realizou reuniões com diversos gestores e proprietários de empresas. Além disso, ele viajou por diversas localidades dos Estados Unidos para encontrar e visitar empresas, fossem elas pequenas ou grandes companhias.

Peter Lynch fazia isso em busca de obter mais conhecimento sobre as empresas que ele compraria, bem como ter uma noção mais real de como a empresa atuava e se comportava. Essas visitas inclusive possibilitaram a Lynch bons negócios, que não seriam enxergados em análises convencionais.

As aparências podem enganar

Uma das principais lições que Lynch passa é não se vislumbrar com empresas que possuam escritórios luxuosos ou similares. Ele aponta que quando chegava em um escritório para visitar uma empresa e possuía salas de reuniões espelhadas, madeira nobre na mesa de reuniões ou da diretoria, ele costumava não comprar ações dessas empresas.

Ele aponta que esse tipo de gasto é totalmente desnecessário e isso mostra que a empresa não está realizando uma boa gestão nesse sentido, o que gera dúvidas sobre a capacidade de gestão dos negócios da empresa. Além disso, aparência como essas podem servir para mascarar a verdadeira face da empresa que pode estar passando por dificuldades e quer transparecer outra imagem.

Por outro lado, escritórios que ficavam em zonas mais humildes da cidade e possuíam um caráter mais simples costumavam animar Lynch. Além de mostrar que tal empresa não realiza gastos desnecessários, poderia significar uma empresa que está subvalorizada no mercado e possibilitaria uma aquisição a preços menores do que realmente valem.

E como seria hoje?

Naturalmente é preciso entender que Lynch fazia isso na década de 80, quando ninguém fazia igual, portanto aplicar esta estratégia conforme Lynch aplicava naquela época, provavelmente não funcionará hoje.

Assessoria de Investimentos

Empresas menores podem ser grandes oportunidades

Peter Lynch sempre foi um entusiasta da aquisição de empresas menores. Ele aponta que esse tipo de empresa possui mais espaço para crescimento. Portanto, adquirir empresas desse tipo podem gerar ganhos maiores do que em relação a investimentos em blue chips.

Encontrar pequenas empresas com bons fundamentos era inclusive um dos objetivos de Lynch nessas visitas à empresas. Isso possibilitava que ele encontrasse bons negócios antes dos demais investidores e mais importante antes que determinada empresa virasse uma empresa muito falada pelo mercado e pela mídia.

Analisando para o período atual, inclusive no mercado brasileiro, essa lógica continua válida. Não é por acaso, que as micro caps e as small caps acabam se apresentando como uma alternativa para muitos investidores em busca de melhores rentabilidades.

É importante ressaltar também que empresas como essas em geral possuem uma maior volatilidade. Dessa forma, a análise de risco também deve ser um fator de análise para comprar ações de empresas desse tipo.

O jeito Peter Lynch de investir

O principal livro escrito por Peter Lynch é o One Up on Wall Street, que foi traduzido no Brasil como “O Jeito Peter Lynch de Investir”. Nessa obra ele passa por diversos pontos da estratégia que ele adotou nos anos de mercado financeiro e a maior parte delas é importante para qualquer investidor.

Conheça algumas leituras importantes para o investidor.

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Procurando por tenbaggers

Lynch afirma que é necessário que os investidores busquem ativos tenbaggers, ou seja, que possam aumentar em 10 vezes o seu valor. Todavia, encontrar empresas com esse potencial não é simples. Portanto, uma série etapas são necessárias para chegar em um investimento com essa possibilidade.

Fazendo a lição de casa

Em uma primeira análise é realizar fazer uma varredura geral na empresa, entender como ela funciona, quem são seus gestores, além de estudar com cuidado os números apresentados pela empresa. Nesse quesito, é importante analisar os balanços divulgados e também verificar bem a porcentagem de dívida em relação ao patrimônio líquido.

Essa análise inicial colabora para compreender se a empresa é saudável do ponto de vista financeiro, conhecer como ela atua no mercado e qual a participação dela no mesmo. Além de conhecer bem os gestores da empresa e a sua forma de atuar.

Análise para além dos números

Apesar de ser importante, a análise dos números não é condição suficiente para realizar a compra de ações de determinada empresa. É necessário acreditar no business dessa empresa e conhecer a fundo os seus fundamentos.

Nesse sentido, Peter Lynch aponta que antes de adquirir uma determinada ação é necessário conseguir responder duas perguntas:

  • “Por que isso é um bom negócio?”
  • “Por que estou comprando essa ação?”

Ao responder essas questões o investidor tende a ter uma perspectiva sobre aquele investimento, além dos fundamentos de caráter técnico. Além disso, ele aponta que essas questões devem ser respondidas de forma simples, de forma que o investidor seja capaz de explicar o investimento a uma criança de 10 anos de idade.

Comprar ações da moda não é uma boa ideia

Quem investe no mercado de renda variável, certamente já se deparou com momentos nos quais a ação de determinada empresa é a queridinha do mercado e da mídia especializada. No Brasil, alguns papeis já obtiveram esse status, talvez o mais recente deles sendo as ações da Magazine Luiza.

Sobre esse tema, Peter Lynch afirma que comprar ações que estão na moda é uma má ideia. Em suma, quando essas ações chegam a um patamar no qual os especialistas em investimentos e até a mídia estão falando bem dessa ação, é porque o seu valor está próximo do topo que ele pode alcançar ou pode até mesmo estar sobrevalorizado.

Por outro lado, ele aponta que ações pouco comentadas ou até mesmo empresas que investidores não estão dando muita atenção costumam ser uma boa ideia. Ele aponta que há boas empresas subvalorizadas no mercado e a tarefa do investidor é encontrá-las. Dessa forma, empresas fora de moda são uma boa ideia de investimento.

Essa lógica também é válida para os setores. Em alguns momentos setores como aviação ou uma indústria específica passam a ser taxados como os setores em expansão que irão gerar ganhos extraordinários. Ele aponta que é necessário ter cuidado com esse tipo de otimismo generalizado também, pois o setor nessas condições pode ser sobrevalorizado.

Compre ações quando todos estiverem vendendo

Uma das lições que os investimentos de Peter Lynch passam é não entrar no efeito manada. Dessa forma, ele aponta que o melhor momento para comprar ações de empresas é quando todos no mercado estão vendendo.

Ele afirma que em geral quando acontecem esses pânicos de mercado, as ações de muitas empresas acabam ficando subvalorizadas e, portanto, surgem boas oportunidades para comprar ações de boas empresas a um bom preço.

Todavia, mesmo nessas circunstância nas quais costumam haver ações de empresas por um preço menor do que elas valem, ele indica para não comprar uma ação apenas porque ela está barata.

Essa indicação está em linha com o argumento dele no qual a análise dos números por si só não é suficiente. Portanto, ele afirma que além da empresa estar num bom preço é necessário acreditar naquela companhia, ou seja, é necessário acreditar que o negócio que aquela empresa executa irá prosperar no futuro.

Quando vender uma ação?

Assim como para comprar uma ação o investidor deve ter um bom motivo para realizar esse movimento, a mesma lógica vale para o momento de vender a ação. Ele aponta que o investidor não pode vender uma ação somente porque o preço dela está valorizado ou já alcançou determinada rentabilidade.

Dessa forma, para ele uma ação só pode ser vendida no instante que a razão para comprar aquela ação não existe mais. Nesse sentido, ele indica que é necessário ter paciência e que caso as razões fundamentais para adquirir aquele papel ainda são válidas, é necessário manter a ação no portfólio.

Acompanhar o efeito manada tende a gerar prejuízos

Ainda sobre quando comprar e vender ações, Peter Lynch relata a experiência dele como gestor de fundo, na qual ele apresenta que apesar do elevado rendimento do fundo em 13 anos, muitos cotistas tiveram prejuízo nesse período.

Esse fato ocorreu devido às pessoas realizarem operações em momentos de otimismo ou pessimismo exacerbado. Dessa forma, em momentos em que o fundo estava em alta e popular havia uma entrada de massiva de cotistas. Por outro lado, quando ocorria algum evento inesperado que gerasse uma queda generalizada mesmo que passageira, muitos cotistas realizavam o resgate do fundo.

Dessa forma, era comum que muitos investidores comprassem o fundo no momento no qual a cota estava mais cara e vendesse nos momentos em que o fundo estava no seu menor preço, o que gerava prejuízo para essas pessoas.

Eventos similares ocorrem na bolsa brasileira e vemos pessoas que investem em ações entrando em pânico. Movimentos como greves, surtos de novas doenças, entre outros tende a ser passageiro. A análise fundamentalista deve prevalecer frente aos movimentos abruptos que ocorrem no mercado financeiro.

Visão de longo prazo e Value Investing

A análise para o investimento na ação de uma empresa deve passar por todos as etapas supracitadas mas um ponto também importante é ter um horizonte de longo prazo para os investimentos.

Uma análise com bons fundamentos não possui uma validade curta. Em geral, um bom investimento também leva algum tempo para maturação, portanto, o investimento em renda variável deve ser feito com uma visão de longo prazo. Isso é importante também para não investir na bolsa como se fosse uma aposta de bar.

Nesse sentido, é que entra a estratégia de Value Investing, criada e difundida por Benjamin Graham. Peter Lynch se baseia nesse lógica para realizar investimentos, visto que ele se posiciona no mercado de forma a se tornar sócio da empresa da qual ele está comprando uma ação.

Tal qual outros grandes investidores como Ray Dalio, John Templeton, entre outros, ele não utiliza seu capital para especulação. Eles realizam seus investimentos visando o aumento de valor dessas empresas, que consequentemente tende a gerar uma valorização das ações. Ou seja, haverá uma valorização da sua parcela da empresa adquirida.

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Não invista dinheiro que não se pode perder

Não há dúvidas que nenhum investidor investe seu dinheiro para perde-lo. Essa inclusive é a principal regra de investimentos de Warren Buffet. Todavia, o mercado de renda variável está sujeito à variações e essa possibilidade deve sempre ser levada em conta.

Dessa forma, Peter Lynch indica que um investidor não pode investir um dinheiro que seja imprescindível para a vida dele. Ou seja, caso a perda desse dinheiro gere para você graves problemas, atrapalhe a sua rotina, é melhor não investi-lo. Priorize investir a renda extra, aquela parcela do seu patrimônio que não impacta diretamente no seu dia-a-dia.

Diversificação de investimentos e gestão de risco

Peter Lynch é famoso também por possuir um vasto portfólio de ações. Apesar de focar apenas na bolsa dos Estados Unidos, ele chegou em alguns momentos a ter mais de 100 ações na sua carteira de investimentos.

Essa variedade de ações colaborava além de tudo para ter uma carteira diversificada. Lynch não possuía restrições pré-determinadas a nenhum mercado. Dessa forma, caso aparecessem boas oportunidades, ele iria investir naquela empresa sem preconceitos.

Análise de risco

Nessa mesma lógica, ele pontua que é necessário ter uma boa compreensão do risco no qual o investidor está se expondo. Dessa forma, a melhor maneira de analisar o risco de cada investimento é ter um bom conhecimento sobre os papeis nos quais se está investindo.

O aprofundamento do conhecimento das ações é importante por dois motivos, o primeiro é porque possibilita ao investidor compreender se aquele é realmente um bom investimento. Segundo, essa análise possibilita mensurar o tamanho do risco no qual o investidor está exposto.

A análise de risco é inclusive um ponto crucial da estratégia de alguns grandes investidores. O principal deles nesse aspecto é Ray Dalio, a formação do portfólio dele é feita de forma a prever os movimentos possíveis da economia que tende a afetar a empresa em questão. Nessa lógica, a gestão de risco vira um ponto central.

Considerações finais

A trajetória de Peter Lynch no mercado financeiro é um exemplo para todos que investem em renda variável e no mercado financeiro como um todo. A lógica que ele segue, baseada no Value Investing, colabora para uma análise minuciosa das empresas a serem adquiridas e ainda instiga o aumento do conhecimento por parte dos investidores.

Analisar uma empresa de perto, saindo às ruas e batendo na porta de gestores de companhias é uma boa forma de entender melhor como funciona a empresa na qual o investidor está se tornando sócio ao comprar uma ação. Isso inclusive colabora para evitar erros e perdas desnecessárias ao longo do tempo.

Outros pontos que são imprescindíveis e são regras que devem estar sempre à mão é a questão de não se deixar levar pelo otimismo ou pessimismo em massa. As análises de cada investidor devem sempre prevalecer frente à oscilações no mercado.

Dessa forma, as lições que Peter Lynch passa aos investidores, sobretudo os mais jovens, é que nada é por acaso. Portanto, é necessário aprofundar os conhecimentos e cada vez mais aprimorar o processo de análise para melhorar a cada dia os investimentos realizados.

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Vinicius Brandao

Por Vinicius Brandao

É economista e autor no blog Caminho para Riqueza.

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