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Como aproveitar oportunidades de comprar ações durante grandes crises?

Períodos de pandemias e crises costumam abrir oportunidades para boas compras de ações. Confira como analisar oportunidades para comprar ações que estão subvalorizadas, calcule-as através do valor intrínseco proposto por Benjamin Graham.

Períodos de grandes crises como a gerada pela pandemia do Coronavírus podem abrir boas oportunidades para comprar ações que estejam subvalorizadas nesses momentos. Comprar empresas subvalorizadas é uma das marcas do value investing, dado que um momento assim costuma apresentar empresas na bolsa como uma verdadeira barganha.

Todavia, sempre paira a dúvida sobre como calcular se o preço de uma ação está justo ou se realmente a queda gerada pela crise gerou oportunidades de comprar boas ações. Nesse sentido, os ensinamentos de grandes investidores pode contribuir para essa análise. Sobretudo, Benjamin Graham, que é pai do método de value investing.

O cálculo do valor intrínseco de Benjamin Graham

Benjamin Graham é o pai do método de investimento conhecido como value investing, ou investimento em valor na tradução para o português. Em suma, esse método visa investir em ações a partir da análise dos fundamentos da empresa, de fato como se estivesse se tornando sócio da empresa em questão e não visando pura e simplesmente um possível aumento do preço da ação.

Dessa forma, Graham aponta sobre o valor intrínseco da ação. Ele aponta em seu principal livro “O Investidor Inteligente”, que as ações possuiriam um valor intrínseco e em suma, o preço dessa ação tenderia a esse valor que seria um valor justo.

Dessa forma, é possível que haja momentos que essa ação esteja sobrevalorizada e nesse caso seria uma boa oportunidade de venda e haveria momentos nos quais a ação estaria subvalorizada e se apresentariam boas oportunidades de comprar ações, como costuma ocorrer em grandes crises.

Cálculo do valor intrínseco

O cálculo mais simples para chegar ao valor intrínseco de uma ação é o seguinte:

VI = 22,5* LPA * VPA

Onde:

  • VI = Valor intrínseco
  • LPA = Lucro por ação
  • VPA = Valor patrimonial da ação

Para calcular o lucro por ação e valor patrimonial da ação, é recomendável buscar duas informações essenciais nos balanços divulgados pelas empresas. Essas informações são o lucro líquido e o patrimônio líquido da companhia para calcular o LPA e o VPA, respectivamente. Em geral, as empresas divulgam seus balanços trimestralmente.

Exemplo de cálculo

Para exemplificar a fórmula indicada por Graham, vamos utilizar o exemplo da Petrobrás, maior companhia da bolsa de valores brasileira. Para realizar os cálculos do exemplo abaixo, foram utilizadas informações do balanço patrimonial referente ao 4º trimestre de 2019:

  • Lucro líquido:  R$ 40.970 (em milhões)
  • Patrimônio Líquido: R$ 299.137 (em milhões)
  • Quantidade de ações emitidas: 13.044.496.930 (incluindo ordinárias e preferenciais)

A partir desses valores chega-se aos seguintes indicadores:

  • LPA = 3,14
  • VPA = 22,93
  • VI = 22,5* 3,14 * 22,93= R$ 40,25

Dessa forma, a partir desse cálculo chega-se ao valor intrínseco de R$ 40,25 para ações da Petrobrás. Entre os meses de março e abril de 2020 durante a pandemia do Coronavírus o preço da ação da Petrobrás chegou a estar na casa dos R$ 11 e antes do início da crise estava em torno de R$ 30. Portanto, segundo esse cálculo o preço da ação dessa empresa está subvalorizado.

Ressalvas acerca desse cálculo

O cálculo do valor intrínseco por esse método deve ser utilizado como mecanismo de análise atrelado a outros indicadores. Esse cálculo ele possui uma exatidão maior quanto mais estável for o lucro da empresa analisada. Dessa forma, esse cálculo acaba sendo mais interessante para grandes empresas com lucros estáveis.

No caso da Petrobrás apesar dela cumprir alguns desses requisitos, ela pode sofrer consequências como alteração no preço internacional do barril de petróleo. Esses são fatores que afetam o lucro líquido da empresa que fogem ao controle da administração da empresa, apesar de existir mecanismos de proteção para mitigar eventos como esse.

Nesse sentido, é importante realizar outras análises atreladas a essa, sobretudo com relação ao mercado no qual a empresa atua. Dessa forma, as perspectivas futuras da empresa também colaboram para aprimorar ainda mais a análise baseada nesse cálculo apresentado.

Outros métodos para calcular o valor intrínseco

Há outros métodos, mais complexos, para realizar o cálculo de valor intrínseco. Dois deles são o histórico de múltiplos e a análise a partir do fluxo de caixa descontado.

Histórico de múltiplos

No caso do histórico de múltiplos é necessário realizar cálculos de VPA, LPA ou Valor Patrimonial sobre Ebitda e comparar empresas similares, geralmente do mesmo setor. Nesse caso, o objetivo é chegar a uma conclusão sobre qual empresa possui melhor vantagem relativa. Esse método deve ser utilizado caso o investidor já tenha focado em um setor e queira elencar a melhor opção.

Análise do fluxo de caixa descontado

No caso do fluxo de caixa projetado, é uma metodologia mais exata, todavia o sucesso do cálculo depende de uma projeção futura bem próxima da realidade. O primeiro passo portanto é projetar o crescimento da empresa para os períodos seguintes. Após isso é necessário atualizar as estimativas a partir de uma taxa de desconto, que normalmente é o custo médio ponderado do capital.

A partir dos descontos, é necessário estimar o valor final da empresa, supondo que ela cresce a uma taxa constante. Além disso, é necessário descontar a dívida líquida para se chegar ao valor de mercado. Por fim, é necessário dividir o valor de mercado pela quantidade de ações emitidas e assim obter o valor intrínseco da ação.

Vale ressaltar que mesmo esses métodos de cálculo mais complexos carecem de algumas análises paralelas. Pois mesmo que os fundamentos da empresa sejam constantes, podem haver mudanças conjunturais na economia ou no mercado de atuação que podem afetar essa companhia, todavia, no longo prazo a tendência é que o preço da ação convirja para o valor intrínseco.

Dividendos como foco de investimentos

Além do cálculo do valor intrínseco difundido pelo Benjamin Graham, outro fator que pode ser um bom parâmetro para aproveitar oportunidades de comprar ações é analisar a distribuição de dividendos das empresas. Esse é um método bastante utilizado por Luiz Barsi, um dos maiores investidores pessoa física da bolsa de valores brasileira.

Dessa forma, uma maneira de analisar se ação está barata é verificar o histórico de pagamento de dividendos da empresa. Esse método de análise é útil para qualquer período, contudo, em um momento de crise, a tendência é que dividendo por ação no período futuro gere um rendimento proporcional maior para quem comprou a ação no momento de baixa.

Dessa forma, uma forma interessante de realizar esse cálculo é analisar qual a média anual de distribuição de dividendos de determinada empresa. A partir desse valor então divide-se pelo preço da ação e estima-se qual será a rentabilidade anual dessa ação a partir da distribuição de dividendos.

No caso das ações conhecidas como pagadoras de dividendos, existe até mesmo ETFs no Brasil que acompanha a rentabilidade dessas ações especificamente. Esses ETFs são os BBSD11 e o DIVO11 que buscam replicar as principais ações pagadoras de dividendos da bolsa brasileira.

Cenário econômico com juros baixos

A perspectiva de renda a partir de dividendos, inclusive, ganha ainda mais notoriedade em um período no qual a nova realidade são os juros baixos na economia brasileira. Nesse sentido, há empresas que pagam periodicamente dividendos que a partir de um cálculo anualizado corresponderia a valor superior à taxa Selic vigente e sem impostos.

Dessa forma, analisar os dividendos também é um fator de análise que tende a contribuir para a formação de um portfólio. Grandes empresas que distribuem dividendos tendem a ser estáveis e boas opções a longo prazo. Portanto, essa pode inclusive ser uma análise paralela à análise de valor intrínseco.

Como calcular a rentabilidade anual dos dividendos

Existem formas diferentes de calcular o dividend yield de uma ação. Contudo, a forma mais simples de realizar esse cálculo é verificar o valor pago de dividendos/juros sobre capital próprio e dividir pelo preço da ação. Dessa forma, é possível verificar qual será a rentabilidade derivada dos dividendos dessa ação.

Exemplo de cálculo

Para exemplificar esse método sobre dividendos, vamos analisar a ação do Bradesco (BBDC4) em meio à pandemia do Coronavírus. O Bradesco, assim como boa parte dos grandes bancos, possui um bom histórico relacionado à distribuição de dividendos. Dessa forma, acaba sendo um exemplo interessante.

A distribuição de dividendos do Bradesco entre os anos de 2017 e 2019 foi a seguinte:

  • 2017 = R$ 1,21889049 por ação
  • 2018 = R$ 1,147612366 por ação
  • 2019 = R$ 2,014724933 por ação

Durante o período da pandemia do Coronavírus em 2020, o preço da ação preferencial do Bradesco chegou a valores inferiores a R$ 18,00. Utilizando esse valor como métrica, um investidor que comprasse a ação a esse preço dado o histórico de distribuição de dividendos do Bradesco teria uma rentabilidade de cerca de 6% ao ano, sem contar a possibilidade de valorização do preço da ação.

Ressalvas quanto a esse método

Apesar dos cálculos apresentarem boas perspectivas de rentabilidade olhando para os dividendos, é importante lembrar que essa rentabilidade pode se estabilizar nesses patamares apenas nos períodos seguintes. Dado que em geral, grandes crises acabam por afetar as receitas dessas empresas, é provável que a distribuição de dividendos seja menor no ano em questão.

Todavia, a tendência futura é de normalização dos resultados da companhia e retomada dos patamares anteriores. Dessa forma, esse olhar para investimento deve ser utilizado com horizonte de longo prazo. Dado que a distribuição de dividendos também pode ser afetada por algum tempo pela crise.

Nesse sentido, é importante seguir a indicação de Luiz Barsi de escolher setores perenes para realizar investimentos. Ou seja, setores que possuem demandas constantes e duradouras tendem a se recuperar logo depois da crise, além de serem menos afetadas, dado que muitas vezes os seus serviços não são interrompidos, como a distribuição de energia elétrica, por exemplo.

Relação entre preço da ação e lucro líquido: Como realizar essa projeção?

Em uma conferência com investidores, Henrique Bredda do Fundo Alaska, apresentou qual índice que ele entende se relacionar com o preço das ações. Dessa forma, ele apresentou alguns gráficos das principais ações da bolsa de valores brasileira atrelado ao lucro líquido das mesmas e as trajetórias de ambos era muito parecida.

Essa forma de análise visa uma prospecção dos resultados futuros de determinada empresa ou setor. Portanto, esse tipo de análise é mais conjuntural, é necessário ter um olhar mais amplo sobre a economia e sobre os resultados que a empresa apresenta e como ela tende a se comportar no período seguinte.

De certo modo essa lógica é condizente com o comportamento das bolsas de valores em pandemias e grandes crises. Dado que nesse período, estima-se que as empresas irão reduzir suas receitas e consequentemente o lucro líquido, é natural que o preço das ações caiam nesse período justamente por esse motivo.

Como realizar esse tipo de análise?

O ponto mais sensível e que tende a gerar dificuldade é estimar a rentabilidade esperada para determinada empresa. O valor mais palpável para realizar essa análise é a TIR (Taxa Interna de Retorno).

Os indicadores que mais impactam a TIR são:

  • Custos menores;
  • Receitas maiores;
  • Recebimento de receitas em prazos mais curtos.

A partir da análise desses dados é possível verificar como está a saúde financeira da empresa. Em suma, a TIR colabora para analisar o fluxo de caixa da empresa, portanto, ela colabora para analisar a capacidade da empresa dentro do mercado.

Por exemplo, caso os custos da empresa em relação ao patrimônio tenha uma evolução estável ao longo do tempo, bem como ela tenha um valor em caixa considerável, a chance da companhia sobreviver a um período de instabilidade conjuntural é maior. Portanto, essa projeção colabora para aproveitar boas oportunidades para comprar ações.

Aspectos conjunturais

Um aspecto importante para levar em conta é como funciona a dinâmica do mercado em que a empresa atua. Há mercados que são mais perenes e há outros mercados que tem uma demanda mais sazonal e menos essencial.

Nesse sentido, setores como de energia elétrica, instituições financeiras, supermercados podem até ser impactados pela crise durante os períodos mais intensos da recessão. Contudo, no período seguinte o natural é que as receitas dessas empresas voltem ao padrão anterior e dessa forma o preço da ação também tende a se recuperar.

Contudo, outros setores de bens não essenciais podem ter uma demora maior para a recuperação. Nesse caso, entram, por exemplo, empresas ligadas ao turismo e a restaurantes, esses setores costumam ter demanda ligada a uma renda extra da população e irão depender do ritmo da recuperação econômica no período seguinte à crise.

Exemplos para esse tipo de análise

Um setor que pode servir para exemplificar essa análise é o setor de construção civil, o qual inclusive estava em destaque no Ibovespa no período anterior à crise do Coronavírus. Em suma, para as construtoras, as receitas são oriundas da venda dos imóveis que as mesmas construíram e com a deflagração da crise e da quarentena, as vendas tendem a diminuir substancialmente.

Nesse caso, dois pontos devem ser levados em conta, o primeiro deles é o patrimônio dessas empresas. Apesar de não ser possível realizar a venda dos imóveis durante um determinado período de tempo, a empresa continua com esses ativos como patrimônio e esses não tendem a depreciar nesse espaço de tempo.

O segundo ponto a ser analisado é se a empresa desse setor possui caixa suficiente para se manter durante o período da crise. Como nesse período as vendas da companhia tendem a cair bastante, é necessário que a empresa tenha caixa para atravessar esse período e após isso retomar as vendas de imóveis.

Fundos imobiliários são uma boa oportunidade nesses períodos?

Os fundos imobiliários também estão sujeitos aos efeitos das pandemias e grandes crises, seja a partir da desvalorização da cota ou até mesmo com a interrupção do pagamento de dividendos. Todavia, assim como no caso das ações , pode-se apresentar boas oportunidades de comprar esses ativos.

A desvalorização da cota dos fundos imobiliários podem torna-los ativos baratos sobretudo frente à capacidade de distribuição de dividendos. Dessa forma, por mais que os dividendos sejam interrompidos por determinado período, o preço menor pode gerar um ganho relativo no futuro para quem comprar agora.

Dessa forma, alguns pontos a serem analisados é qual a perspectiva de distribuição de dividendos para esse FII, esse dado ajuda a ter uma ideia sobre a rentabilidade esperada. Além disso, é importante dar atenção ao tipo de imóvel que está atrelado a esse fundo imobiliário.

Há fundos que são mais afetados que outros a depender do imóvel. Por exemplo, lajes corporativas sofrem um efeito menor em relação a imóveis relacionados a shopping centers durante uma pandemia, onde é necessário o afastamento social. Nesse sentido, a análise desse tipo de ativo também não pode ser descartada.

Considerações finais

Saber qual o melhor momento para comprar uma ação é o desejo de qualquer investidor mas mais importante ainda é ter noções básicas para não perder boas oportunidades de comprar ações a um bom preço.

Contudo, como diz Peter Lynch, mais do que analisar os números é importante ter o sentimento de que aquele é um bom investimento. Nesse sentido, ele afirma que não basta uma ação estar barata para ser comprada, o investidor deve ter convicção que estará realizando um bom investimento.

Dessa forma, utilizar todas as ferramentas disponíveis é o primeiro passo para realizar uma boa análise e aproveitar boas oportunidades de comprar ações. Além disso, é necessário estar atento também a movimentos conjunturais da economia, como já disse Jim Rogers, um dos grandes investidores mundiais, para ter bons ganhos é importante se adiantar a mudanças históricas.

Vinicius Brandao

Por Vinicius Brandao

É economista e autor no blog Caminho para Riqueza.

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