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Inflação: o que é e como ela impacta os investimentos?

Compreender bem o que significa inflação e os impactos nos investimentos é essencial. Entenda como surge a inflação e como ela se insere nos investimentos.

A Inflação na crise do coronavírus

A inflação é um dos indicadores econômicos mais comentados pela população como um todo e também no setor de investimentos. Esse é um índice que impacta o dia-a-dia da população ao redor do globo, dado que tem impacto no poder de compra da população. Dessa forma, compreender bem como funciona esse indicador é de suma importância, sobretudo para os investidores.

Além de impactar o poder de compra, a inflação também pode impactar a rentabilidade real dos investimentos. Justamente por esse motivo, há investimentos, especialmente de renda fixa, que possuem rentabilidade atrelada a esse índice. Portanto, a análise desse indicador pode colaborar na estratégia de gestão da carteira de investimentos.

Outro ponto que é importante esclarecer é como a inflação se comporta em períodos de crise. Crises súbitas como a gerada pela pandemia do Coronavírus pode suscitar dúvidas sobre esse índice e quais os impactos que ele pode gerar.

Crise Coronavírus retangular

Antes de mais nada, como a inflação impacta os investimentos?

A inflação pode impactar a economia de formas variadas e em geral tende a ter um peso maior sobre as camadas mais baixas da população. Contudo, uma inflação descontrolada pode impactar também na rentabilidade real e no horizonte de investimentos de boa parte dos investidores.

A inflação reduz o poder de compra da renda auferida e isso não é diferente com relação aos rendimentos auferidos a partir dos investimentos. Dessa forma, suponhamos um investimento em ações com foco em dividendos que possibilite um ganho de 5% ao ano. Caso a inflação, nesse período seja de 6%, na verdade em aspectos reais, não houve ganho e sim perda, dado que comparando a inflação com a rentabilidade houve perda de poder de compra.

Como me proteger da inflação?

A grande vantagem para os investidores com relação à inflação é que existem investimentos que possibilitam justamente se proteger contra o aumento desse índice. Além de investimentos em renda variável que apesar dos riscos podem gerar ganhos maiores que os valores, há também investimentos em renda fixa que são diretamente atrelados a esse índice.

Dessa forma, uma maneira de se proteger contra os efeitos da inflação é ter um percentual da carteira de investimentos alocado em títulos de renda fixa atrelados à inflação. Mas além disso, compreender bem como funciona a dinâmica da inflação e que fatores podem gerar esse aumento podem colaborar ainda mais para a gestão eficiente dos investimentos.

O que é inflação?

A inflação é o índice que representa o aumento nos preços de uma determinada cesta de bens e serviços. Dessa forma, a inflação não representa apenas o aumento de um bem específico, ela é uma média ponderada de uma cesta de bens que em geral é escolhida de acordo com os hábitos de consumo de cada país ou região.

Essa cesta de consumos é atualizada de forma recorrente, portanto, é comum que com mudanças nos hábitos de consumo alterem a cesta de produtos. Por exemplo, no Brasil a partir de determinado período foram incluídos no cálculo da inflação serviços como transporte por aplicativo e streaming.

Além disso, cada índice contabilizado na cesta de consumo analisada possui valor ponderado, ou seja, o aumento de determinados bens impacta mais que outros. Por exemplo, um aumento de 5% no preço do feijão irá impactar mais o índice de inflação do que o aumento de 5% no preço do serviço de streaming, dado que o peso do primeiro item é maior na cesta de consumo dos brasileiros.

Formas de inflação

Existem algumas formas de inflação nas economias como um todo. As mais comuns são a inflação de demanda e a inflação de custos. Mas além dessas duas mais comuns, há também a inflação inercial, a qual era um dos fatores que colaboraram para recorrente inflação vivenciada pelo Brasil, sobretudo durante a década de 1980.

Inflação de demanda

A inflação de demanda é a forma de inflação mais comum na maior parte das economias. Essa inflação ocorre quando há uma expansão na demanda da população de determinado país ou região mas não há um aumento correspondente da oferta ou pelo menos não há um aumento da oferta na mesma velocidade do aumento da demanda.

Esse tipo de inflação é bastante comum em momentos de expansão do PIB. Em linhas gerais, quando há expansão do PIB costuma ocorrer uma redução do desemprego e na média aumento real dos salários. Dessa forma, é comum haver um aumento da demanda e consequentemente um aumento da inflação.

Inflação de custos

A inflação de custos está atrelada ao aumento nos custos de produção sem que haja um aumento da demanda dos produtos em questão. Esse tipo de inflação pode ser gerado por aumentos em qualquer um dos custos de produção, como salários, impostos ou insumos.

Um fator gerador da inflação de custos é o aumento do dólar em relação à moeda local. Como muitas empresas possuem custos dolarizados, um aumento no preço da moeda americana pode gerar uma elevação nos custos. Esse movimento é conhecido na economia como efeito pass-through.

Nesse sentido, com o aumento dos custos, esse aumento costuma ser repassado para o consumidor final. Há também a possibilidade dos produtores diminuírem a oferta devido ao aumento nos custos, nesse cenário também há tendência a ocorrer uma inflação de custos.

Inflação inercial

A inflação inercial é a menos comum dentre as formas de manifestação da inflação, todavia ela foi muito comum na história dos países em desenvolvimento, como o Brasil. Essa inflação está associada à memória inflacionária do país. Nesse caso, os preços são reajustados sempre devido à expectativa dos produtores de haver uma persistência da inflação.

Dessa forma, para esse tipo de inflação, não há uma ligação direta com o aumento da demanda ou aumento nos custos. Um fator que pode agravar esse tipo de inflação são os preços indexados, ou seja, em uma economia na qual há reajustes automáticos é comum haver algum nível de inflação inercial.

Fatores que podem gerar aumento na inflação

Algumas medidas do governo ou da autoridade monetária, como o Banco Central, pode impactar no aumento da inflação. Não por acaso, uma das metas do Banco Central do Brasil é justamente o controle da inflação. Em geral, o que pode levar a um aumento da inflação é a injeção de liquidez forçada na economia. Mas como é realizada uma injeção de liquidez?

Existem alguns mecanismos para o Banco Central injetar liquidez na economia. As principais são:

  • Emissão de papel-moeda;
  • Redução dos depósitos compulsórios dos bancos comerciais;
  • Redução da taxa básica de juros.

Emissão de papel-moeda

A regra geral da maior parte dos governos para novas emissões de papel-moeda é que essa emissão deve acompanhar o crescimento do PIB. Essa lógica é adotada porque compreende-se que com o aumento do PIB irá haver um aumento da demanda na mesma proporção, portanto, é necessário emitir mais moeda para suprir esse aumento da demanda.

A nível de contextualização histórica, o critério apresentado acima, passou a ser mais utilizado após o abandono do padrão ouro e do padrão ouro-dólar durante o Acordo de Bretton Woods após a Segunda Guerra Mundial. No padrão ouro era necessário que a emissão de moeda pelos países fosse lastreada pelas reservas de ouro detidas por esses países.

Redução dos depósitos compulsórios dos bancos comerciais

Esse mecanismo de liquidez não é muito abordado, mas é essencial para o nível de liquidez de um país. Os bancos comerciais também possuem a capacidade de criar moeda via crédito. Mas eles possuem um limite para esse movimento, o qual é controlado pelo Banco Central a partir da obrigatoriedade desses bancos de manterem um valor em posse do Banco Central.

Caso o Banco Central decida ser necessário aumentar a liquidez da economia, ele pode reduzir o percentual obrigatório dos depósitos compulsórios. Dessa forma, os bancos comerciais teriam maior capacidade de gerar crédito e consequentemente de injetar liquidez na economia.

Redução da taxa básica de juros

A gestão da taxa básica de juros também é uma competência da autoridade monetária. Dessa forma, caso o Banco Central queira aumentar a liquidez da economia, ele pode reduzir a taxa de juros, nesse sentido deve haver uma redução dos custos do crédito e consequentemente maior liquidez na economia.

É por esse motivo, que é bastante comum que em momentos de problemas inflacionários, é normal o Banco Central aumentar a taxa de juros para conter a demanda. Todavia, a gestão dos juros deve ser feita olhando para o todo, dado que o encarecimento do crédito também pode impactar o setor produtivo e pode ter um efeito negativo no PIB.

Breve histórico da inflação no Brasil

A inflação alta no Brasil é um problema que remonta até mesmo ao período colonial e da República Velha. Esse foi um problema persistente e que teve alguns momentos mais agudos, como durante a década de 1980, no qual é possível dizer que o Brasil passou por um momento de hiperinflação, onde o governo perdeu totalmente a capacidade de intervir no índice.

Nesse período houveram uma série de planos de estabilização inflacionária mas que todavia não lograram sucesso. A trajetória desse índice no Brasil sofreu uma mudança a partir do Plano Real implantado em 1994.

Além do Plano Real, a partir de 1999 o Brasil passou a adotar o regime de metas de inflação. Nesse regime, há um piso e um teto para a inflação e o Banco Central precisa adotar medidas a partir de seus instrumentos visando manter a inflação dentro desse intervalo. Caso isso não ocorra, o presidente do BACEN precisa obrigatoriamente prestar esclarecimentos.

Desde a instituição desse regime de metas em 1999, a inflação brasileira esteve em geral dentro da meta estipulada, salvo raras exceções. Dessa forma, é possível considerar que a inflação brasileira esteja sob controle.

Principais índices de inflação no Brasil

O principal índice de inflação no Brasil é o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) calculado pelo IBGE. Esse índice abarca uma série de produtos desde a cesta básica, como também energia elétrica, transporte, mensalidade escolar, serviços de streaming, entre outros. Dentre esses produtos, cada um possui uma ponderação diferente para realização do cálculo final.

Além do IPCA, outro índice utilizado é o IGPM (Índice Geral de Preços do Mercado) calculado pela FGV. Esse índice é mais utilizado para reajuste de contratos, sobretudo contratos de aluguel, pois concede maior peso aos custos da construção civil.

Deflação: o que é e por que ela também é prejudicial?

À primeira vista pode parecer estranho falar de deflação como algo ruim, ou até mesmo pode parecer estranho haver um piso para a meta de inflação. Mas a deflação, ou seja, a queda do índice geral de preços, pode gerar efeitos negativos na economia.

Em geral, uma deflação é ocasionada por um aumento da oferta de produção atrelada a uma queda na demanda. Dessa forma, haverá a necessidade dos produtores reduzirem seus preços e que acaba por gerar a deflação. Com a redução dos preços e da demanda, é natural que haja uma queda na produção e consequentemente um aumento no desemprego. Dessa forma, a deflação pode ser inclusive um dos primeiros sinais de uma recessão.

Qual o cenário ideal então?

O ideal para o índice de inflação é que ele esteja em um nível positivo mas controlado. Ou seja, o cenário ideal é que a inflação oscile de um ano para outro dentro de um intervalo controlado, pois assim é possível diminuir a incerteza dos agentes e melhorar as previsões dos agentes econômicos.

Como a inflação se comporta em períodos de crise?

O impacto das crises no índice de inflação pode ter efeitos diversos. Inclusive são as variações possível que geram uma série de debates sobre quais medidas podem ser tomadas nesses períodos sem incorrer num surto inflacionário. Durante a crise da pandemia do Coronavírus ou mesmo durante a crise de 2008, esse debate foi colocado em pauta.

A principal questão é que as crises econômicas acabam por gerar uma situação atípica, na qual não é possível adotar apenas as regras padrões utilizadas em períodos comuns. Mas por que isso ocorre?

Durante grandes crises econômicas, tende a haver uma desaceleração econômica e consequentemente um aumento no desemprego e queda na demanda. Dessa forma, com a queda na demanda, há uma descompasso entre a redução da demanda e a redução da oferta, o que tende a gerar uma queda no nível geral de preços.

Crise Coronavírus retangular

Quais medidas o governo pode tomar durante as crises?

Em períodos de crise como a demanda está desaquecida, medidas de injeção de liquidez por parte do governo não tendem a afetar a inflação. Não por acaso, a maior parte dos Bancos Centrais ao redor do mundo reduziu rapidamente as taxas básicas de juros durante as crises. Para se ter uma ideia, durante a crise de 2008, o Banco Central da Índia baixou 3% a taxa de juros de uma só vez para tentar conter a queda na demanda.

Tanto a crise de 2008 quando a crise gerada pelo Coronavírus foram crises de caráter global. O impacto global dessas duas crises podem ser exemplificados no impacto que tiveram os principais índices das bolsas de valores mundiais.

Mas por que durante a crise eu enxergo preços maiores no mercado?

Apesar de em momentos de crise, em geral, a inflação enquanto índice geral não ser pressionada, é comum as pessoas enxergarem preços maiores no mercado, sobretudo no começo. Esse movimento foi ainda mais comum durante a pandemia do Coronavírus, na qual houve quarentena e muitas pessoas fizeram algum estoque de comida para sair poucas vezes de casa.

Como essa crise específica gerou uma corrida aos mercados, dada a ameaça de necessidade de lockdown e das pessoas não poderem sair de casa, muitas pessoas correram aos mercados e começaram a montar estoques de mantimentos dentro de casa.

Essa corrida aos mercados gerou um aumento de demanda momentâneo, em particular, sobre os itens da cesta básica de consumo. Nesse sentido, o aumento da demanda foi em uma velocidade maior que a velocidade dos mercados em ofertar mais produtos. Portanto, houve um aumento dos preços desses produtos.

Preciso me preocupar com o impacto da inflação nos investimentos durante as crises?

Em geral, a inflação é o menor dos problemas durante um período de crise. Dessa forma, os investidores em linhas gerais não precisam se preocupar mais que o comum com a inflação nesses períodos, pois inclusive o natural é que se índice sofra uma desaceleração.

Com relação aos investimentos, durante os períodos de crises, os riscos maiores acabam se apresentando a partir da volatilidade que acabam por afetar a maior parte das bolsas de valores do mundo, tanto as principais bolsas de valores do Ocidente como também de outros mercados como China e Rússia.

Nesse sentido, a melhor recomendação é manter a estratégia de gestão da carteira de investimentos. Além disso, também é importante se aprofundar mais para poder aproveitar boas oportunidades geradas pelas crises.

Como os grandes investidores encaram a inflação?

 Em geral, os grandes investidores se preocupam pouco com o índice de inflação. Investidores brasileiros como Luiz Barsi costumam afirmar que para traçar seus investimentos não se atém muito aos índices de inflação divulgados pelas instituições do governo.

Entre os investidores estrangeiros, essa questão só costuma ser levada em conta para investidores que atuam em mercados diversos como Jim Rogers, por exemplo. Contudo, algumas forma de investir de outros investidores mesmo que eles atuem apenas nos Estados Unidos, podem colaborar para montar uma carteira e se proteger da inflação.

A estratégia de investimentos de Ray Dalio, a qual ele chama de “todas as estações”, engloba por exemplo títulos de renda fixa de curto e longo prazo, os quais servem para mitigar os riscos incorridos na volatilidade do mercado. Nesse sentido, é possível adaptar essa carteira de investimentos para inserir ativos que protejam o investidor dos efeitos negativos da inflação.

Considerações finais

Para um investidor, sobretudo no Brasil, conhecer bem como funciona o índice de inflação e também quais são seus fatos geradores é essencial para ter um olhar melhor sobre a economia como um todo. Dessa forma, essa compreensão colabora para que a estratégia de investimentos seja cada vez mais eficiente.

A inflação, de forma geral, pode impactar os ganhos reais dos investimentos. Mas caso o investidor saiba como se posicionar frente à inflação, é possível inclusive utilizá-la a favor da sua carteira de investimentos.

Vinicius Brandao

Por Vinicius Brandao

É economista e autor no blog Caminho para Riqueza.

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