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Hedge para investimentos: Como utilizar opções para proteger sua carteira

Fazer hedge para proteger seus investimentos é uma alternativa para reduzir riscos. Entenda melhor como montar o hedge para os seus investimentos.

Um dos fatores que mais geram dúvidas nos investidores são as formas para proteger sua carteira da períodos de grande volatilidade no mercado. Dessa forma, aprender como fazer hedge para os seus investimentos apesar de não ser algo simples é uma tarefa necessária para uma performance mais estável do seu portfólio.

Há diversas maneiras para realizar o hedge dos seus investimentos. Dessa forma, é importante conhecer bem os ativos que compõe sua carteira de investimentos para saber qual a melhor alternativa para se proteger. Além disso, a estratégia de gestão da carteira de investimentos deve ser levada em conta para saber o nível de volatilidade suportado pela carteira.

Breve histórico do mercado de opções e derivativos

A utilização de opções e derivativos em geral como mecanismo de hedge para os investimentos é uma operação que existe no mínimo desde o século XVIII. Esse tipo de operação foi criada sobretudo com foco no mercado agrícola para proteger os agricultores contra eventualidades em relação às colheitas.

Esse tipo de operação ganhou ainda mais destaque com o surgimento da Bolsa de Chicago nos Estados Unidos em 1848, a qual era focada nesse tipo de operação. Essa bolsa de mercadorias continua até os dias atuais sendo uma das principais bolsas de valores do mundo.

Bolsas de valores asiáticas e de outras regiões do mundo também operam opções e derivativos há muitos anos. A bolsa de valores brasileira começou a operar contratos futuros já no ano de 1917.

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Hedge para uma carteira com várias ações

Um dos mecanismos de hedge mais tradicionais para o mercado de renda variável é a venda de opções de futuro do índice Ibovespa. Esse hedge tem por objetivo proteger a carteira de investimentos contra grandes variações no índice como um todo.

Todavia, esse mecanismo não é simples, é necessário obter o beta de cada ação para saber quantos contratos de futuro de Ibov são necessários para proteger essa carteira. Em suma, o beta da ação mede a sensibilidade média da ação em relação à variação do índice Ibovespa.

Em suma, quanto mais perto de 1 estiver o beta de uma ação mais próximo está sua variação em relação ao Ibovespa. Portanto, se o beta de uma ação é 1, essa ação possui variação idêntica ao Ibovespa. Caso o beta da ação seja 0,3 quer dizer que essa ação varia menos em relação ao Ibov, ou seja, caso o Ibovespa caia 10%, essa ação irá cair 3%.

Dessa forma, para montar esse hedge é necessário seguir os seguintes passos.

1º Etapa: Calcular o valor relativo de cada ação dentro da carteira

Para exemplificar esse mecanismo de hedge vamos utilizar uma carteira fictícia de R$ 100.000,00 com quatro ações: Petrobrás (PETR4), Via Varejo (VVAR3), Itaú-Unibanco (ITUB4) e Taesa (TAEE11). A distribuição do capital dessa carteira é a seguinte:

AçãoValor% Relativa
PETR4     33.000,0033%
VVAR3     17.000,0017%
ITUB4     24.000,0024%
TAEE11     26.000,0026%
Total   100.000,00100%

2ª Etapa: Calcular o beta da carteira de investimentos

Para calcular o beta da carteira é necessário conhecer o beta de cada ação e realizar o cálculo ponderado. O beta não é um valor fixo, portanto, ele deve ser recalculado de forma periódica, portanto, para esse exemplo foi usado um beta aproximado para cada ação.

AçãoBetaValor relativo do Beta
PETR41,30,43 (1,3 x 33%)
VVAR31,10,19 (1,1 x 17%)
ITUB41,050,25 (1,05 x 24%)
TAEE110,30,08 (0,3 x 26%)
Beta total da carteira = 0,95

3ª Etapa: Quantidade de contratos de futuro Ibov

Por fim, o último passo é calcular a quantidade de contratos futuros Ibov é necessário vender para proteger a carteira. Para se chegar a esse número é preciso utilizar a seguinte fórmula:

  • Quantidade de contratos = (Valor da Carteira / Valor do Índice) * Beta da carteira

Dessa forma, para realizar esse cálculo vamos supor que o índice Ibovespa esteja em 100.000 pontos. Nesse caso, o cálculo ficaria da seguinte forma:

  • Quantidade de contratos = (100.000 / 100.000) * 0,95 = 0,95

Realizando a transformação para minicontratos, é necessário multiplicar esse valor por 5, o que levaria ao valor de 4,75. Nesse caso, portanto, para proteger essa carteia seria necessário vender 5 mini contratos de futuro de índice. No caso de um contrato com vencimento para agosto de 2020, o ticker desse mini contrato seria WINQ20.

Como calcular o beta de cada ação?

Calcular o beta da ação a um primeiro olhar parece uma tarefa difícil mas com o auxílio do Excel se torna uma tarefa simples. A fórmula para calcular o beta de uma ação é a seguinte:

  • Beta: Covariância (Ação, Mercado) / Variação (Mercado)

Para realizar o cálculo é necessário montar uma base de dados com o histórico de preço de um determinado período da ação analisada e também do Índice Ibovespa. A partir dessa base é necessário incluir uma coluna com a variação percentual diária do preço da ação e também do índice Ibovespa.

A partir desses dados, é possível aplicar a seguinte fórmula no Excel:

=(covariação.s (Ra;RIbov) / Var.a (RIbov))

Onde:

Ra = Retorno da ação

RIbov = Retorno do Ibovespa

No momento de aplicar a fórmula, basta substituir Ra e RIbov pela coluna com as variações percentuais diárias do preço da ação e do valor do índice. Após calculado o beta, basta ir atualizando a base de dados para manter o cálculo atualizado.

Esse hedge é infalível?

É sempre importante lembrar que nenhum hedge é infalível, dado que a incerteza é um fator inerente aos investimentos em renda variável. Todavia, utilizar um mecanismo como esse colabora para reduzir perdas derivadas de um período de alta volatilidade do mercado.

No caso da queda generalizada das bolsas de valores durante a pandemia do Coronavírus, por exemplo, a utilização de um mecanismo como esse teria no mínimo reduzido o tamanho do prejuízo durante a sequência de circuit breakers que ocorreram na bolsa. Como o índice ibovespa caiu e você estaria vendido em futuro de índice, o valor positivo desses contratos minimizaria as perdas com as quedas nos preços das ações.

Hedge com compra de PUT de BOVA11

Uma opção também muito utilizada para proteger uma carteira comprada em ações é a compra de opções de venda, conhecidas como PUT. Essas operações podem ser realizadas a partir da compra de PUT da própria ação ou então a partir da compra de PUT de BOVA11, caso a sua carteira tenha uma forte correlação com índice Ibovespa. Vale lembrar que BOVA11 é um dos principais ETF’s no Brasil.

Para realizar esse hedge com maior precisão é indicado calcular o beta da carteira para saber se de fato o conjunto das ações do portfólio possuem forte correlação com o Ibovespa. Em caso positivo, é necessário comprar a quantidade de PUT de BOVA11 que corresponda ao tamanho da carteira.

No caso dessa operação, caso o Índice Ibovespa sofra uma queda, o preço das ações da carteira irão cair. Todavia, com a queda do índice, o preço da PUT que você comprou irá subir e, portanto, irá diminuir o volume da perda financeira ocasionada pela queda generalizada das ações.

Comprar PUT in the Money ou out of the money?

O preço de exercício da PUT a ser comprada é um tema que gera dúvidas e, de fato não existe um consenso sobre esse ponto. Em geral, comprar a PUT in the Money, ou seja, uma PUT cujo exercício seja no valor atual de BOVA11 tende a ter um custo muito elevado e esse custo acumulado ao longo do tempo tende a prejudicar a rentabilidade da carteira.

Uma alternativa é estabelecer um percentual aceitável de perda e dessa forma a compra da PUT seria utilizada como mecanismo de segurança para eventos muito bruscos, como a deflagração de uma crise, como ocorreu em 2008, por exemplo. Essa PUT seria, portanto, out of the Money. Não existe um número mágico para esse ágio, mas em geral 15% é um valor razoável.

Ou seja, caso o BOVA11 esteja precificado a R$ 100,00 no dia de hoje e eu pretendo comprar uma PUT com ágio de 15%, eu irei comprar uma PUT com exercício de BOVA11 em R$ 85,00. Dessa forma, eu não tenho um custo muito elevado para proteção e me protejo de quedas que façam com que o índice Ibovespa caia abaixo desse patamar.

Riscos desse tipo de hedge

Assim como no caso anterior, esse mecanismo de hedge não é a prova de erros, dado que, por exemplo, as ações da sua carteira podem descolar do índice Ibovespa, por exemplo. Todavia, esse método também é eficiente com relação à quedas generalizadas da carteira do mercado de renda variável.

Além disso, apesar de cumprir uma função parecida com o primeiro método, esse mecanismo de proteção é mais simples de ser executado. Portanto, para quem tem menos disponibilidade de sempre atualizar a base de cálculos e analisar a necessidade de aumentar ou diminuir os mini contratos de futuro de índice, comprar PUT de BOVA11 acaba sendo uma alternativa melhor.

Hedge cambial com derivativos

O hedge cambial é um dos mecanismos de proteção mais utilizados no mundo inteiro. Ele pode ser utilizado para ações de empresas que possuem os custos ou as receitas em moeda estrangeira, esse é o caso de empresas exportadoras como a Vale e a Gerdau ou no caso das aéreas como Azul e Gol que possuem boa parte dos seus custos dolarizados.

Além disso, esse é um mecanismo também muito útil para quem realiza investimentos em empresas no exterior. Nesse caso, o investidor pode comprar um derivativo cambial para que ele se exponha somente à variação do preço do ativo comprado e não incorra no risco da variação cambial com relação à moeda do ativo.

Futuro de dólar e outras moedas

Os contratos e mini contratos de futuro de dólar e de outras moedas como o euro são os derivativos mais comuns utilizados para fazer hedge cambial. Em geral, o investidor deve comprar a quantidade de contratos referentes à posição comprada na qual ele deseja se proteger.

Exemplo:

Vamos utilizar como exemplo um investidor que comprou ações na Nyse, principal bolsa dos Estados Unidos. Esse investidor comprou 20.000 dólares ao câmbio de R$ 5,00, ou seja, ele investiu em reais o valor de R$ 100.000,00. Todavia, esse investidor não quer correr o risco do dólar desvalorizar em relação ao real, ele quer correr apenas o risco das ações que ele comprou.

Dessa forma, ele irá entrar vendido em um contrato futuro de dólar, cujo o valor total do contrato seja o valor investido. Nessa situação, ele não incorrerá em risco cambial, dado que caso o real se valorize em relação ao dólar, o contrato de futuro irá gerar lucro, enquanto a posição de ações irá ter prejuízo. Sendo assim, a variação cambial total da carteira é igual a zero.

Empresas brasileira com custos ou receitas dolarizadas

No caso da compra de ações de empresas brasileiras com custos ou receitas dolarizadas é possível utilizar mecanismo similar ao do exemplo anterior. A diferença essencial nesse caso é que é recomendável saber qual o nível da variação do preço da ação da empresa em relação à variação do dólar.

Dessa forma, recomenda-se calcular o beta dessa ação, mas ao invés de utilizar o histórico do índice Ibovespa, seria usado a variação percentual diária do dólar. A partir do beta é possível saber qual a sensibilidade dessa ação às variações do câmbio.

Após descobrir o valor do beta da ação em relação ao dólar, então é possível calcular quantos contratos ou minicontratos serão necessários para proteger sua posição da variação cambial. O cálculo é exatamente o mesmo apresentado no início desse artigo.

Hedge natural

Caso determinada empresa possua os custos e as receitas dolarizadas, então essa empresa na verdade já possui um hedge natural. Dado que quando há uma variação cambial, as despesas e as receitas variam em direções opostas.

Dessa forma, o impacto da variação cambial nos resultados da empresa serão nulos ou então tão pequenos que não vale a pena montar um hedge para esses investimentos.

Mecanismos de hedge utilizados por grandes investidores

A utilização de hedge para proteger a carteira de investimentos é muito utilizada pelos grandes investidores do mundo. Um dos investidores que mais se notabilizam por montar estratégias de gestão de risco é Ray Dalio.

Em linhas gerais, Ray Dalio possui uma estratégia que ele chama de 4 estações, dado que segundo ele essa carteira responde a todas as variações da economia que impactam o mercado de ações.

Esse é um investidor que também utiliza opções e contratos futuros como forma de proteger seus investimentos. Inclusive, alguns analistas de mercado preferem não seguir o exemplo de Ray Dalio pois entendem que a estratégia utilizada por esse investidor é tão complexa em relação ao uso de derivativos que é impossível ser utilizada sem uma equipe de gestão.

John Hull: Introdução aos mercados futuros e de opções

Um dos livros mais conhecidos e mais presentes nas prateleiras de investidores que utilizam o mercado de opções é o “Introdução aos mercados futuros e de opções” de John Hull. Esse livro possui um vasto registro sobre esse mercado com a explicação de muitas estratégias utilizadas a partir desse tipo contrato.

Esse é um livro também muito comum nas mesas das gestoras de investimentos. Sobretudo, para os profissionais que realizam a precificação dos ativos, dado que para esses profissionais é imprescindível saber como funcionam os ativos que estão no portfólio da gestora.

Value investing e a análise fundamentalista são sempre a melhor opção

A utilização do hedge para realizar investimentos pode ser uma alternativa interessante, sobretudo o hedge cambial quando o investidor quer apenas incorrer no risco da ação. Todavia, é importante ressaltar que em relação às opções utilizadas para proteger uma carteira de ação como contratos futuros de índice e PUT de BOVA11 elas geram custos que podem pesar no longo prazo.

Dessa forma, para evitar custos que podem prejudicar a sua rentabilidade é importante analisar bem os fundamentos da ação a ser comprada para que não seja necessário sempre ter custos para proteger a carteira. Há métodos que colaboram para saber como aproveitar boas oportunidades de investimentos.

O value investing ou investimento em valor em português é um método criado por Benjamin Graham e utilizado pela maior parte dos grandes investidores. Inclusive, Luiz Barsi, um dos grandes investidores brasileiros, sempre reafirma que é importante reduzir ao máximo aos custos da carteira para não prejudicar a rentabilidade da mesma.

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Considerações finais

Aprender a montar o hedge para os investimentos é importante para todos os investidores. Mesmo para quem compra ações baseados em fundamentos sólidos, pode haver momentos nos quais seja necessário alguma forma de proteção da carteira ou mesmo para realizar uma operação estruturada.

Momentos como a pandemia do Coronavírus ou mesmo a crise de 2008 tiveram sinais meses antes de que era possível ocorrer um momento de instabilidade. Dessa forma, momentos como esse nos quais há incerteza, é melhor criar um hedge do que simplesmente vender toda a carteira.

Até porque se o investidor está focado no longo prazo, não verá problemas em manter a posição durante a crise. Nesse sentido, o hedge irá possibilitar que mesmo durante a crise a rentabilidade dos seus investimentos se mantenha estável.

Vinicius Brandao

Por Vinicius Brandao

É economista e autor no blog Caminho para Riqueza.

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