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Crise de 2008 e Investimentos: Causas e Consequências

A crise de 2008 foi um marco para a economia global e para os investimentos. Entenda as causas da crise de 2008 e seus impactos nos investimentos como um todo.

A crise global de 2008

A crise de 2008 foi a primeira crise financeira de caráter global que muitas gerações vivenciaram e acabou impactando o mundos dos investimentos. As crises tem o poder de gerar impactos negativos mas também de trazer grandes ensinamentos, além de possibilitar encontrar boas oportunidades de investimentos.

Compreender as causas e consequências da crise de 2008 colabora não apenas para compreender como funcionam os ciclos econômicos mas também para posicionar os seus investimentos frente à conjuntura econômica.

Além disso, é válido também conhecer um pouco sobre como grandes investidores se comportaram no momento dessa crise. A leitura dos movimento econômicos e também a reação frente à turbulência podem ser ensinamentos valiosos, especialmente para os jovens investidores.

Crise de 2008: Quais foram suas causas?

A origem da crise de 2008 está no mercado imobiliário dos Estados Unidos mas acabou passando não apenas para os demais investimentos financeiros como também para o setor produtivo. Mas o ano de 2008 é apenas o ano no qual a bolha imobiliária do país estoura, os precedentes que criaram as bases para chegar nesse estágio foram gestados desde o final da década de 1990.

Nos 10 anos anteriores à deflagração da crise houve um grande incentivo ao crédito, sobretudo o crédito imobiliário. Na maior parte dos casos, o crédito era cedido e o imóvel a ser financiado servia como garantia para a instituição financeira que estivesse concedendo o crédito.

Subprime

Como havia essa garantia física do imóvel, isso gerava uma segurança para que os bancos concedessem cada vez mais crédito. Nesse cenário, passou-se a liberar crédito imobiliário com menos restrições, ou seja, foram realizadas concessões de crédito para muitas pessoas que não tinham reais condições de arcar com as parcelas do empréstimo.

Esses créditos de segunda linha são o famoso subprime. Dessa forma, sempre que você ouvir o termo crise do subprime de 2008, é uma referência a esse crédito de segunda linha que foi altamente difundido durante a década em questão.

Mercado imobiliário inflacionado

Esse grande fluxo de crédito imobiliário contribuiu também para que o mercado imobiliário ficasse inflacionado. Dessa forma, os valores dos imóveis a serem financiados e consequentemente o valor que eles tinham em garantia ficaram cada vez maiores no decorrer do tempo.

O valor inflacionado dos imóveis, por sua vez, fizeram com que as dívidas contraídas para financiar esses imóveis também estivessem inflacionadas. Ou seja, o valor das dívidas era muito superior ao valor real dos imóveis.

Isto aumentou a exposição ao risco das instituições financeiras. Isto porque, no caso dos tomadores de crédito não honrarem seus pagamentos, mesmo podendo executar a dívida com o imóvel de garantia, esse teria um valor menor que a dívida contraída.

Aumento dos juros e início do crash

Portanto, com o aumento desenfreado do crédito imobiliário, o risco de estourar essa bolha fica cada vez mais latente. Dessa forma, quando houve um aumento taxa de juros americana ocorreu um aumento generalizado da inadimplência.

O aumento da inadimplência comprometeu a saúde financeira dos bancos. Dado que os imóveis estavam sobrevalorizados, com o movimento de queda do mercado, iniciou-se uma desvalorização desses imóveis.

Dessa forma, chegou ao ponto, no qual as dívidas contraídas eram maiores que os valores dos imóveis. Dessa forma, é possível encontrar exemplos nos quais, a dívida relacionada ao crédito imobiliário era de US$ 250 mil e o valor de mercado do imóvel passou para US$ 50 mil.

CDO (Colatteralized Debt Obligation)

Além do aumento da inadimplência dos créditos imobiliários, outro fator contribuiu para a deflagração de uma crise financeira, o qual foi a indexação dos pagamentos dos créditos imobiliários aos CDOs.

O CDO (Collateralized Debt Obligation) era um mecanismo de captação dos bancos com clientes superavitários e davam como garantia desses CDOs os pagamentos dos financiamentos imobiliários.

Dessa forma, a partir do momento em que o fluxo oriundo dos pagamentos dos créditos imobiliários sofreu uma forte redução devido ao aumento da inadimplência, os bancos passaram a não conseguir honrar suas obrigações com estes CDOs.

Esse movimento gerou um efeito dominó no sistema financeiro. Dado que muitas vezes os detentores desses colaterais (CDOs) eram também instituições financeiras. Portanto, ao passo que não eram pagos os financiamentos imobiliários, os bancos também não honravam os CDOs e esse efeito se espalhou por todo o sistema financeiro.

Quebra do Lehman Brothers

Essa crise financeira não surgiu em 2008, nos anos anteriores ela já dava sinais mais claros de que iria eclodir, dado que esse movimento de inadimplência e o efeito dominó já haviam iniciado.

Inclusive, alguns investidores já haviam posicionado seus investimentos frente a isso e quando a crise eclodiu em 2008 acabaram tendo grandes lucros. Mas o grande marco dessa crise foi a quebra do Banco Lehman Brothers em 15 de setembro de 2008.

Esse banco era uma das maiores instituições financeiras do mundo e possuía mais de 150 anos de história. Dessa forma, quando nessa data foi declarada a falência desse banco, houve pânico generalizado não apenas na bolsa de valores americana mas nas principais bolsas de valores do mundo.

Dessa forma, com a quebra do Lehman Brothers houve uma liquidação generalizada de ativos financeiros. O movimento mais natural no mercado financeiro em momentos de crise é a busca pela liquidez ou por ativos considerados seguros.

Porque a partir do momento em que um dos maiores bancos do mundo declara falência, a primeira pergunta que vem à mente dos investidores e até mesmo da população como um todo é: se um banco desse tamanho quebrou, então qualquer instituição está suscetível à falência nesse momento.

Como a crise financeira passou para a economia real?

Um ponto básico para quem realiza investimentos, sobretudo investimentos em ações é compreender que o setor financeiro não está dissociado do setor real da economia. Dessa forma, a crise de 2008 não afetou apenas os investimentos financeiros mas sim a economia como um todo.

Mas como isso ocorre?

A partir do momento que há uma crise financeira, liquidação generalizada de ativos, haverá consequentemente uma dificuldade maior de financiamento tanto para empresas como para países.

Nos países emergentes, a tendência é que o pânico gere um fuga de capitais e dessa forma, os Estados nacionais tenham maior dificuldade de financiamento, tenham que usar suas reservas cambiais para não incorrer em uma desvalorização excessiva da moeda, entre outros fatores.

Em relação às empresas, muitos setores dependem da cessão de crédito para realizarem suas vendas, especialmente no setor de bens duráveis, como automóveis, eletrodomésticos, entre outros. Portanto, com uma crise de crédito, o consumo tende a cair e as empresas são afedas.

Além disso, a instabilidade diminui a confiança do empresário. Portanto, os investimentos tendem a diminuir e isso impactará a produção, o nível de emprego e em última instância o PIB dos países.

Como o Brasil enfrentou a crise de 2008?

Uma frase famosa à época da crise proferida pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi que a crise financeira no Brasil era apenas uma “marolinha”, ou seja, teria poucos impactos negativos.

As políticas econômicas do Brasil à época para enfrentar a crise de fato contribuíram para atenuar os efeitos da mesma no Brasil. Nesse período houve redução da taxa de juros e aumento do investimento público. Esse tipo de política econômica tem a capacidade de induzir o crescimento econômico.

Esse tipo de política é conhecida na literatura como política anti-cíclica, ou seja, quando há uma queda no produto, o Estado intervém para não deixar que a economia do país caía em profunda recessão. A nível de teoria econômica, essa é uma política de cunho keynesiano.

O Brasil teve uma queda do PIB a partir do último trimestre de 2008 e que gerou uma queda no PIB em 2009. Todavia, as políticas econômicas citadas acima contribuíram para o Brasil retomar o crescimento no ano de 2010, no qual o PIB teve uma elevação de 7,5%.

Bolsa de valores e investimentos durante a crise de 2008

A bolsa de valores brasileira tal qual as demais bolsas de valores ao redor do mundo sofreram forte impacto, sobretudo nos primeiros meses após a deflagração da crise de 2008. A bolsa brasileira alcançou a mínima de 29 mil pontos nesse período.

Nesse período de crise é possível ver com clareza a correlação entre os principais índices das bolsas de valores mundiais, especialmente nesse caso que foi uma crise gestada dentro da esfera financeira. O índice S&P 500 dos Estados Unidos e outros índices como os das bolsas de valores asiáticas seguiram trajetória similar ao índice Bovespa.

Todavia, assim como a economia brasileira, a bolsa brasileira se recuperou bem no período seguinte. Ao final de 2009 mesmo com PIB negativo nesse ano, a bolsa de valores brasileira já alcançava os 68,5 mil pontos, quando comparado o último pregão de 2008 e o último pregão de 2009 houve uma valorização de quase 83% em reais.

Comportamento de grandes investidores durante a crise de 2008

Observar como grandes investidores se comportaram durante períodos de grandes crises podem servir como um guia para os demais investidores aprenderem a lidar com situação como essas.

Cada investidor possui um perfil e uma aversão ao risco mas em geral a experiência contribui ao menos para minimizar perdas nesses períodos. Em alguns caso, colabora para encontrar grandes oportunidades e usar a crise como uma alavanca para o crescimento do seu patrimônio.

Michael Burry e a crise de 2008

A trajetória de Michael Burry durante a crise de 2008 deve ser uma das mais famosas dentro do cenário de investimentos nesse período. Não apenas devido ao sucesso do filme “A Grande Aposta” (Big Short no nome original em inglês) mas também por ele ter antecipado anos antes a existência de uma bolha no financiamento imobiliário e apostado nessa análise.

Burry analisou desde 2005 os contratos de financiamento imobiliário e como funcionava o sistema de garantias dos bancos para esses financiamentos. Em uma análise simples e superficial a maioria das pessoas encarava aqueles empréstimos como algo totalmente seguro dado que os imóveis eram a garantia da cessão de crédito dos bancos.

Todavia, ele percebeu que estava havendo uma cessão indiscriminada de crédito de segunda linha, o chamado subprime. Além disso, ele também percebeu que o valor dos imóveis financiados estava inflacionado, ou seja, caso a bolha estourasse o fato desses imóveis serem a garantia dos financiamentos não resolveria o problema que os bancos teriam.

Derivativo de Michael Burry apostando contra o subprime

Dessa forma, ele apostou justamente na inadimplência desses financiamentos. Ele criou um derivativo que funcionava como uma espécie de seguro em relação a essa inadimplência. Dessa forma, em caso de inadimplência ele poderia executar a opção do derivativo.

Quando Burry ofereceu esse acordo aos bancos detentores desses financiamentos, os bancos aceitaram o acordo tratando Burry como um maluco. Todavia, em pouco tempo começou o processo de inadimplência generalizada que proporcionou à Scion (gestora administrada por Burry) lucro bilionário em um espaço de 3 anos.

Luiz Barsi e a crise de 2008

Luiz Barsi, é um dos principais investidores pessoa física da bolsa de valores brasileira. Esse investidor leva à última instância o lema de “comprar barato e vender caro”. Dessa forma, as crises para ele são a melhor oportunidade para comprar ações no mercado. Ele afirma que o bom investidor deve ficar esperando a crise como um jacaré com a boca aberta esperando para dar o bote.

Barsi defende que o foco do investimento em ações deve ser sempre no longo prazo, além disso ele argumenta que é necessário realizar aportes periódicos para nunca perder oportunidades de valorização do seu patrimônio.

Segundo ele, esse hábito fez com que ele inclusive tivesse sorte dentro da crise de 2008. Ele havia comprado ações do Banco Nossa Caixa que possuía a folha de pagamento dos servidores públicos do Estado de São Paulo. Pouco tempo depois esse banco foi comprado pelo Banco do Brasil e Barsi vendeu as ações nessa operação tendo lucro expressivo.

Logo após essa negociação, estourou a crise de 2008 e as ações do Banco do Brasil, novo proprietário da Nossa Caixa despencaram. Ele aproveitou essa oportunidade para comprar essas ações que estavam na visão dele com preço extremamente subvalorizado e obteve sucesso, dado que além de ser uma ação que distribui bons dividendos, teve uma valorização expressiva nos anos seguintes.

Ray Dalio e o sucesso da estratégia “Todas as Estações”

Ray Dalio é um dos grandes investidores famosos pela sua estratégia de gestão de risco. Dalio possui uma estratégia rígida de diversificação do portfólio baseada em uma análise que ele chama de “Todas as Estações”. Nessa estratégia ele adquire ativos que possibilitam que ele enfrente todos os movimentos da economia que podem gerar impacto nos ativos financeiros.

Essa estratégia é rígida, dado que Dalio defende que em caso de valorização ou desvalorização de uma das classes de ativos presente no portfólio é necessário fazer um re-balanceamento da carteira. Essa estratégia é uma das causas do grande sucesso que a Bridgewater, gestora de Dalio, obteve sobretudo durante os anos 2000.

Apesar de já ter ganhado fama bem antes disso, Dalio teve a sua estratégia colocada à prova durante a crise de 2008 e o resultado acabou por dar razão aos argumentos apresentados por Dalio.

Durante a crise, mesmo após a quebra do Lehman Brothers e a queda generalizada e em grandes proporções dos principais índices das bolsas de valores, a carteira de Dalio sofreu uma queda de apenas de 3%. Os mecanismos de proteção da carteira dele em relação à volatilidade funcionaram durante esse período.

Apesar de também ser adepto do investimento em ações e de longo prazo e do value investing, Dalio aponta que a volatilidade das ações é muito maior que em relação à títulos de dívida, por exemplo. Além disso, ele defende a manutenção de um percentual investido em ouro. Ele aponta que esses mecanismos de defesa colaboram para proteger a carteira contra momentos de alta volatilidade sem perder oportunidades de obter ganhos expressivos com o mercado de ações.

Como os ensinamentos da crise de 2008 colaboram para atuar em outras crises?

Todas as crises tendem a trazer bons ensinamentos para os investidores, seja pela experiência de enfrentar uma turbulência com queda generalizada dos mercados e aprender a agir nesses momentos. Mas também é importante para saber como o mercado costuma reagir no pós crise, isso inclusive colabora para diminuir a ansiedade desses períodos.

A crise financeira de 2008 certamente não é igual à crise gerada pela pandemia do Coronavírus. A crise de 2008 foi gestada dentro da esfera financeira, enquanto a crise iniciada em 2020 é uma crise em grande parte de demanda, dado que a população mundial acabou sendo impossibilitada de continuar consumindo no mesmo ritmo, o que consequentemente tende a gerar uma queda na produção.

Todavia, apesar das diferenças e apesar da recuperação de cada crise ocorrer em ritmos diferentes, é possível verificar que em geral essas crises abrem boas oportunidades para os investidores. Além disso, outro ponto a ser aprendido é ter paciência. Sobre paciência Warren Buffet tem uma frase clássica:

O mercado financeiro é onde os pacientes ganham dinheiro dos impacientes.
(Warren Buffett)

Considerações finais

A crise de 2008 foi um marco na história da economia global e certamente será tema de pauta tanto de cursos de economia durante as próximas décadas como também influenciou bastante no comportamento do mercado financeiro global desde então.

A compreensão dessa crise financeira global colabora para que os investidores possam absorver melhor o que foi esse momento e possam utilizar esses ensinamentos para melhorar ainda mais a sua forma de investir. Além disso, entender as crises e os ciclos econômicos colabora para atuar cada vez melhor quando ocorrer crises econômicas no futuro.

Portanto, os impactos da crise de 2008 nos investimentos foram na verdade positivos para muitos investidores, tanto em âmbito financeiro quanto educativo. Como diria John Templeton, um dos grandes investidores da história:

Conhecimento nunca é demais.
(John Templeton)

Vinicius Brandao

Por Vinicius Brandao

É economista e autor no blog Caminho para Riqueza.

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