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Bolsas de valores em pandemias: Como os mercados se comportam?

A pandemia do Coronavírus está derrubando bolsas de valores ao redor do mundo, as quedas já se assemelham a percentuais similares aos da crise de 2008. Muitos investidores começaram a investir há pouco tempo nas bolsas de valores e não passaram pela crise de 2008 e muito menos passaram por outras pandemias ou grandes epidemias como a Gripe Suína de 2009.

Dessa forma, uma boa alternativa para tentar entender como funciona a dinâmica no mercado nesses momentos e no pós-pandemia, é interessante analisar como as bolsas de valores se comportaram em outras pandemias. Portanto, analisar outros casos como gripe espanhola em 1918, gripe asiática na década de 1950 e também gripe suína de 2009 pode contribuir para ter uma visão melhor sobre o atual momento e o período seguinte.

Por que pandemias afetam a economia e as bolsas de valores?

Antes de discorrer sobre as pandemias ocorridas e como foram os seus efeitos nas bolsas de valores do mundo, é importante compreender como esse tipo de evento afeta a economia. A partir de uma análise simples, o que movimenta a economia é a demanda, ou seja, quanto mais as pessoas consumirem maior tende a ser o crescimento de um país, dado que as empresas irão vender mais serviços e produtos e consequentemente irão investir e empregar mais.

Quarentena

Dessa forma, um período de pandemia tende a gerar uma queda da demanda e dado o caráter globalizado da economia na atualidade, esse efeito deve desencadear para todo mundo independentemente do nível que cada país for afetado. Além disso, o período de quarentena também tende a gerar uma crise de produção dado que pode haver menos trabalhadores disponíveis.

Coronavírus

Por exemplo, o Coronavírus afetou em um primeiro momento a China, esse país por sua vez teve que incluir regras de distanciamento social e manter as pessoas em casa, além de direcionar os recursos do país para conter o avanço da pandemia. Dessa forma, além das pessoas consumirem menos por estarem confinadas, o Estado chinês deixa de realizar investimentos de infraestrutura e isso além de afetar a economia chinesa, afeta a economia brasileira que exporta minério de ferro, aço, entre outros itens para a China.

Contudo, a pandemia se espalhou por todos os continentes e para ser controlada deve impor quarentenas na maioria dos países, o que deve reduzir a demanda, gerar a falência de pequenas empresas. Portanto, a necessidade de reduzir a circulação das pessoas para conter a pandemia gera um impacto negativo na economia, por isso, as pandemias tendem a ter efeitos negativos no PIB.

Como as bolsas de valores são afetadas por pandemias?

A bolsa de valores, por sua vez, não está dissociada da economia. Dessa forma, com a diminuição do ritmo da economia e o impacto negativo nas empresas, elas tendem a ter menos lucros e consequentemente gera um fluxo de vendas dessas ações, o que acaba por derrubar as principais bolsas de valores do mundo.

Contudo, isso não significa que os fundamentos analisados para compra de determinada ação não existem mais. Essa realidade está atrelada ao período da pandemia, passada a turbulência a economia tende a voltar ao seu curso natural e as empresas tendem a retomar sua atividade econômica. Dessa forma, é importante ter calma e se possível meditar nesses momentos, para não realizar operações que possam gerar grandes prejuízos.

Gripe espanhola: Como a bolsa de valores reagiu a essa pandemia?

A gripe espanhola foi a maior pandemia verificada nos tempos modernos. O surgimento dessa pandemia coincide também com o final da Primeira Guerra Mundial, portanto, os efeitos econômicos desses dois eventos acabam se misturando.

Apesar da interligação do mundo naquela época ser bem menos que nos dias atuais, a doença acabou se espalhando ao redor do mundo devido ao fim da guerra. Dado que os soldados em combates acabaram contraindo a doença e voltando para seus países de origem contaminados e dessa forma proliferando a doença. Veja uma teoria um pouco diferente sobre esta questão com a gripe espanhola.

Estima-se que essa pandemia contaminou quase 30% da população mundial e morreram até 100 milhões de pessoas, cerca de 5% da população à época. Essa pandemia inclusive infectou o presidente americano Franklin D. Roosevelt e o presidente brasileiro Rodrigues Alves, além de ter infectados em todos os continentes.

Efeitos da gripe espanhola no S&P 500

Apesar das bolsas de valores nessa época não serem tão abrangentes e tão desenvolvidas como são na atualidade, é possível verificar os efeitos de pandemias nas bolsas de Londres e dos Estados Unidos.

Tal como é possível observar no momento atual em relação ao Coronavírus houve uma queda vertiginosa dessas bolsas de valores durante o período de vigência da pandemia, que ocorreu entre o segundo semestre de 1918 e o primeiro semestre de 1919.

Nesse período o índice S&P 500 caiu cerca de 24% em 1918 e teve uma leve recuperação de 8% em 1919. Todavia, a partir de 1920 o qual é o primeiro ano sem a questão da gripe espanhola o índice retoma sua trajetória de crescimento e em suma passa por sucessivos anos de alta até a crash da bolsa de 1929.

Efeitos da gripe espanhola na bolsa de Londres

Naquele período, a bolsa de Londres ainda possuía um protagonismo no mercado financeiro mundial e ainda era a principal bolsa de valores do mundo. Nesse período, a influência da economia de guerra gerada pelo conflito nos anos anteriores e a interligação menor com outros mercados fez com que a bolsa de Londres não sofresse impactos negativos tal qual o índice da bolsa americana.

Gripe asiática de 1957 e os impactos nas bolsas de valores?

A pandemia gerada pela gripe asiática em 1957 é considerada a segunda maior do século XX, ficando atrás apenas da gripe espanhola. Essa gripe foi verificada pela primeira vez no Leste asiático no começo de 1957 e perdurou até o começo de 1958. Essa gripe possuía uma letalidade elevada em idosos mas devido ao avanço da tecnologia, o combate a essa gripe foi mais eficiente que o da pandemia anterior.

Apesar de ter chegado a outros continentes, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos, a gripe asiática teve uma abrangência menor que a pandemia anterior. Inclusive, os impactos dessa crise nas bolsas de valores foi diferente de outras pandemias, dado que o vírus afetou as regiões do mundo em diferentes momentos.

Dado que os efeitos da crise da gripe asiática chegaram primeiro na Europa, a bolsa de Londres sofreu seus efeitos já em 1957. Além disso, as economias europeias ainda passavam por certa instabilidade devido ao fato de ainda estarem no período de reconstrução pós Segunda Guerra Mundial.

Nesse sentido, a bolsa de Londres no ano de 1957 sofreu uma queda de 5,8% em 1957. Todavia, a recuperação em relação a essa pandemia foi ainda mais veloz que no período anterior, e já no ano seguinte a bolsa londrina alcançou uma alta de 40% no seu principal índice.

Efeitos da gripe asiática no S&P 500

Os efeitos da gripe asiática no S&P 500 demoraram mais a se manifestar dado que a doença tardou um tempo maior para chegar aos Estados Unidos. Dessa forma, como a pandemia alcançou esse país em um momento de maior controle, o índice da bolsa americana não chegou nem a sofrer uma queda, apenas uma diminuição do ritmo de crescimento.

Dessa forma, no ano de 1957, o índice ainda não sofreu grande impacto e subiu cerca de 24%. Já no ano seguinte os efeitos da crise foram mais sentidos na economia estadunidense e, portanto, em 1958 o S&P 500 cresceu apenas 2,9%.

Além disso, é importante salientar que tal qual durante a gripe espanhola, tanto a bolsa de Londres quanto a bolsa dos Estados Unidos passaram por um forte período de alta após as pandemias supracitadas. O S&P 500, por exemplo, passou por anos sucessivos de crescimento até a Pandemia gerada pelo vírus Influenza em Hong Kong dez anos depois.

Influenza de Hong Kong de 1968: Impactos dessa pandemia nas bolsas de valores

No começo de 1968 foram detectados casos de contaminação pelo vírus Influenza em Hong Kong. O pico dessa pandemia ocorreu entre o final do ano de 1968 e 1969. Essa pandemia impactou com mais força os países próximos a Hong Kong e chegou de forma mais leve a outras regiões do mundo.

Dada a influência do Reino Unido em Hong Kong e também as grandes relações comerciais entre essas duas regiões, a bolsa de Londres foi mais afetada por essa pandemia do que a bolsa dos Estados Unidos, por exemplo. No caso da bolsa de Londres, após o mercado de ações inglês ter passado por um crescimento de 57% em 1968, incorreu em queda de 15% no ano de 1969.

No caso do índice S&P 500, houve apenas uma desaceleração do crescimento, passando de um crescimento de 12% em 1968 para um crescimento de 7% em 1969. A pandemia gerada pelo Influenza a partir de Hong Kong dentre as três grandes pandemias do século XX, foi a que afetou menos as bolsas de valores e as economias ao redor do mundo. Nesse caso, inclusive, a crise do petróleo poucos anos depois viria a gerar impactos negativos bem maiores em muitos países.

Influenza H1N1 (Gripe Suína) de 2009

O surto gerado pelo vírus Influenza H1N1 que gerou uma epidemia conhecida como gripe suína é a epidemia de caráter global mais recente antes do surto gerado pelo Coronavírus. Esse surto teve seu início no México, o que tenderia a gerar um impacto maior nos Estados Unidos dada a proximidade geográfica.

Em relação à proliferação do vírus, a descoberta rápida de uma vacina mitigou os efeitos da proliferação desse vírus. Em âmbito econômico, o fato do vírus ter ocorrido de forma quase concomitante à crise financeira de 2008, fez com que os impactos da epidemia na economia e nas bolsas de valores praticamente não fossem sentidos.

O baixo impacto nas bolsas de valores foi devido aos ativos, em geral, estarem subvalorizados devido ao tamanho da queda durante a crise. Dessa forma, mesmo durante o ciclo de aumento da epidemia nos Estados Unidos, o índice Dow Jones sofreu uma valorização de 40% entre o começo da epidemia e o final da mesma.

O único momento de inflexão do índice durante esse período foi quando o vírus chegou ao pico de casos nos Estados Unidos. Portanto, durante alguns meses o índice entrou em trajetória de queda mas logo se recuperou.

Em geral, nas bolsas de valores ao redor do mundo, os impactos dessas epidemia foram similares. Primeiro, porque essa epidemia não atingiu com tanta força outras regiões e segundo porque a maioria das bolsas de valores do mundo também estava com seus ativos subvalorizados devido à crise de 2008.

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Outras epidemias entre os séculos XX e XXI

Houve outras epidemias durante o período abordado mas com impactos menores a nível global ou então acabaram nem sendo percebidas a nível econômico porque aconteceram em meio a crises que já estavam em curso.

Gripe aviária de 1997

A gripe aviária existe desde o início do século XX mas em geral infectava apenas frangos e outras aves. Todavia, em 1997 foram registradas mortes em Hong Kong a partir do vírus causador da gripe aviária, provavelmente a partir da ingestão de aves contaminadas.

Esse evento causou um grande temor à época de que a gripe aviária pudesse se propagar pelo mundo mas verificou-se um tempo depois que esse vírus apesar de propenso a mutações não se propaga com facilidade entre humanos. Além disso, os impactos econômicos do temor dessa epidemia praticamente não foram sentidos dado que ocorreu em meio à crise russa de 1998.

SARS (Coronavírus de 2003) na Ásia

O primeiro surto de Coronavírus ocorreu em 2003 na Ásia, a epidemia naquele momento foi controlada ainda no continente asiático e os casos fora do continente acabaram sendo esporádicos. Apesar de não ter afetado a economia mundial, essa epidemia gerou naquele momento uma queda substancial nas bolsas asiáticas.

Nesse contexto, entre janeiro e março de 2003 o principal índice da bolsa de Tóquio caiu cerca de 12%. Contudo, após o controle da epidemia no período seguinte, o índice retomou a trajetória de alta e obteve uma recuperação de 42%.

Como gerenciar os investimentos em tempos de pandemia?

A pandemia atual do Coronavírus vem se apresentando como a maior pandemia mundial desde a gripe espanhola de 1918, no caso atual agravada pela facilidade de locomoção entre países e continentes, o que facilitou a propagação do vírus. Esse momento além de gerar um temor grande com relação à saúde global, também gera um temor com relação à economia e consequentemente com os investimentos.

Dessa forma, nesse momento a lógica do value investing tem que ser lembrada e aplicada. Afinal, é necessário analisar quais são os fundamentos em relação às empresas listadas na bolsa e caso esses fundamentos não tenham sido afetados pela crise atual, os resultados das empresas tendem a se recuperar no período imediatamente posterior ao fim da pandemia.

Sem dúvidas, é difícil avaliar exatamente quando a pandemia irá acabar, até porque na maioria dos países do mundo, o número de casos ainda está em ascensão. Contudo, é possível avaliar as experiências de países que já controlaram a expansão da doença e tomar como exemplo para outros países que estão tomando medidas similares.

Outro ponto importante, é tomar como exemplo eventos anteriores com relação à pandemias. Apesar do momento atual possuir especificidades, como facilidade de comunicação, ou seja, as informações chegam com mais velocidade, a lógica similar. Dessa forma, baseado em experiências anteriores, a tendência é que a economia e as bolsas de valores se recuperem no momento posterior ao fim da pandemia.

Como se comportariam grandes investidores em momentos como esse?

Uma análise interessante a ser feita, é como os grandes investidores se comportam ou se comportariam em momentos similares ao atual. Há algumas alternativa que podem ser seguidas, mas na maioria delas nenhum desses investidores optaria por se desfazer das suas posições no meio da crise, dado que os ativos em geral estão subvalorizados.

Ray Dalio

Ray Dalio, por exemplo, é um investidor que se protege de momentos como esse fazendo uma carteira de investimentos balanceada. Dessa forma, o cálculo de risco que ele realiza contribui para que a carteira de investimento dele sofra poucas variações em momentos de volatilidade da bolsa de valores. Essa estratégia contribuiu para ele diminuir as perdas na crise de 2008.

Jim Rogers

Há grandes investidores que aproveitam momentos como esse justamente para irem ás compras. Investidores como Jim Rogers e Peter Lynch, por exemplo, são seguidores da lógica do value investing e em momentos como esse tendem a analisar ainda mais ações para aproveitar boas oportunidades.

Peter Lynch

Um ponto que Peter Lynch gosta de salientar é que é necessário fazer uma análise criteriosa nesses momentos também. Afinal, não é só porque uma ação está barata que a empresa por trás dela irá conseguir bons resultados no futuro.

Luiz Barsi

Há também grandes investidores brasileiros como Luiz Barsi e Luiz Alves Paes de Barros que sempre afirmam não se assustarem com períodos como esse. Afinal, eles confiam nos fundamentos que eles seguiram para comprar suas ações.

Henrique Bredda

O mesmo vale para investimentos em fundos de ações. Os fundamentos seguidos pelos gestores devem ser avaliados. Henrique Bredda, por exemplo, é um dos principais gestores de ativos no Brasil e sua lógica de investimento tende a se manter, tal qual, a lógica seguida por Peter Lynch, Luiz Barsi, entre outros.

Considerações finais

A apreensão em momentos como esse são normais, sobretudo para quem nunca experimentou uma turbulência como essa. Dessa forma, é necessário ter calma e ser o mais racional possível para tomar decisões.

Além disso, os efeitos nas bolsas de valores gerados por pandemias possuem especificidades de cada período mas em geral o mercado financeiro tende a se recuperar no período seguinte.

Vinicius Brandao

Por Vinicius Brandao

É economista e autor no blog Caminho para Riqueza.

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